19.2.03

A CIDADE MARAVILHOSA de COELHO NETO


Constitui um erro atribuir a Coelho Neto a designação de Cidade Maravilhosa para o Rio. No artigo “Os Sertanejos”, publicado à página 3 da edição de 29-30 de outubro de 1908 do jornal A Notícia (conforme descobri na Biblioteca Nacional, e não em 28/11 como afirmam quase todas as fontes) o autor de fato usou essa expressão, mas em referência à Exposição Nacional do centenário da abertura dos portos (na época uma espécie de "cidade artificial" asséptica & deslumbrante, como hoje, digamos, uma Disneyworld), no que não estava sendo original, porque outras matérias da imprensa também se referiam à exposição como Cidade Maravilha ou Cidade Maravilhosa

Em seu livro de 1893 A capital federal (Impressões de um sertanejo) (que você pode ler clicando aqui) não consta essa designação. E no conto “A Cidade Maravilhosa” publicado no livro de mesmo título de 1928, embora um dos personagens seja carioca e tente seduzir uma interiorana fazendo alusões tentadoras ao Rio, a "cidade maravilhosa" que dá nome ao conto não é o Rio, é uma "cidade de sonho", imaginária, evocada à noite por uma queimada. "Aqui a tem, a sua cidade maravilhosa. Viu-a de longe, era linda. Veja agora. Ilusões, fanciulla [criancice]. Adriana olhava estarrecida. Mas não era a destruição das árvores, não eram aquelas cinzas pardacentas, ainda mornas, não eram aqueles troncos denegridos, aqueles ramos que rechinavam [=queimavam] amojados de seiva que a comoviam, mas a lembrança da cena da estrada, a sedução do homem sinistro a mostrar-lhe, ao longe, no fogaréu rutilante, a cidade maravilhosa, cidade do sonho, cidade do amor." 

Aqui está um fac-símile do conto (escaneado da primeira edição, na ortografia da época) para você conferir. Outra alternativa é comprar o livro Cidade Maravilhosa na livraria da Amazon e ler (na ortografia atual) no seu Kindle. Para isso clique aqui.

























2 comentários:

Waldir Do Val disse...

Li as páginas de "A cidade maravilhosa". Coelho Neto mostra-se bom romancista,mas impossível de ser lido hoje, pelas palavras hoje desusadas. Teria de ir ao dicionário muitas vezes. Fui apenas uma vez. Também seria impossível uma edição "revista". Se alguma editora se atrevesse em publicá-lo, teria de colocar em pé de página a "tradução". Do seu leitor Waldir.

Ivo Korytowski disse...

Caro Waldir, de fato Coelho Neto é um preciosista no uso das palavras, mas por outro lado seu poder de descrição é incrível, quase balzaquiano (em contraste com Machado). Nos seus romances (recomendo A Conquista e Turbilhão) você viaja pelo Rio do seu tempo (você "vê" os detalhes, "ouve" os sons, C.N. é extremamente impressionista no sentido de mobilizar as impressões sensoriais), e embora tenha sido escorraçado pelos modernistas (como mais tarde os esquerdistas escorraçariam o Simonal), ele é um autor "moderno" no sentido que mostra ambientes sórdidos (p. ex., da prostituição de luxo) e sentimentos recônditos (incestuosos, p.ex.). Vale a pena ler o Coelho Neto, sim!!! (Com um bom dicionário do lado!)