20.5.18

QUAL FOI O PRIMEIRO ARRANHA-CÉU DO RIO?

Qual foi o primeiro arranha-céu do Rio? Você deve ter ouvido falar que foi o edifício A Noite. Será verdade? Depende do que se entende por “arranha-céu”.

IGREJAS COMO “ARRANHA-CÉUS”
Até o advento do século XX, as igrejas, com suas torres ou cúpulas, sobressaíam em relação às casas, que se limitavam a um, dois ou, em alguns raros casos, três andares. Por exemplo, na Praia de Botafogo, a Igreja da Imaculada Conceição, hoje "escondida" por um viaduto e apequenada pelos prédios em volta, era a construção mais proeminente, como mostra a foto abaixo.

Praia de Botafogo e Corcovado. Observe que a Igreja da Imaculada Conceição de 1881, que na época se destacava das demais construções, hoje está "escondida" por um viaduto. 

Quando concluída a cúpula, no final do século XIX, a Candelária era a mais alta construção da cidade (62,24 metros de altura do chão até o zimbório), visível à distância. No romance A Conquista de Coelho Neto, um retirante nordestino, chegando de navio e olhando a cidade de longe, confunde a Candelária com um ovo:

— Deus salve a vosmicê. Que coisa é aquela ali, moço? Aquilo no meio das casas que parece um ovo, mal comparando.
— É a Candelária.

Esta gravura de 1861 de Laurent Deroy, Panorama de Rio de Janeiro, mostra como as igrejas pairavam sobre as demais construções. À direita, a Candelária, ainda sem a cúpula.

PRIMEIRA GERAÇÃO DE EDIFÍCIOS
Com a abertura da então Avenida Central, hoje Rio Branco, em 1905 surge a primeira geração de edifícios, estilo Beaux Arts, afrancesados, vencedores de um concurso de fachadas, a maioria com três ou quatro pavimentos, mas alguns atingindo maiores alturas, como foi o caso do Edifício Lafont, depois Palácio Rio Branco, na esquina com a Rua Santa Luzia, de seis pavimentos além da mansarda, primeiro (e por algum tempo o único) prédio de apartamentos da cidade, de alto luxo, do início da década de 1910, infelizmente demolido.

Edifício Lafont (e não Lafond como se costuma escrever), depois Palácio Rio Branco, já demolido, primeiro (e por algum tempo o único) prédio de apartamentos (de luxo) da cidade, do início da década de 1910, na esquina da Av. Central, depois Rio Branco, com Rua Santa Luzia, projetado por Viret & Marmorat, "mas que, pelas peculiaridades do estilo, dir-se-ia mandado vir, já pronto, de Paris" segundo Lúcio Costa em Arquitetura Brasileira.

Mas o prédio mais alto da cidade nessa época era a sede do Jornal do Brasil, com onze pavimentos, além de uma torre. O jornal permaneceu ali do início de 1910 até a década de 1970, quando se transferiu para a Avenida Brasil e o prédio da Rio Branco foi infelizmente demolido. O prédio só não foi chamado de arranha-céu porque na época o termo ainda não era de uso corrente.

Sede do Jornal do Brasil de 1910 à década de 1970. Fonte (e mais informações): site ESTILOS ARQUITETÔNICOS 

SEGUNDA GERAÇÃO DE EDIFÍCIOS
No final da década de 1910 e primeira metade da década de 1920 brota a segunda geração de edifícios cariocas, sem a suntuosidade do Beaux Arts da primeira geração da Avenida Central, mas ainda com fachadas decoradas, seguindo o mesmo espírito dos sobrados ecléticos da virada do século. 

Possivelmente o primeiro desses prédios ecléticos tenha sido o então New York Hotel, atual Rio Hotel, na Praça Tiradentes, de 1918, com sete andares, primeiro prédio carioca explicitamente chamado de “arranha-céo” na imprensa da época ("Agora mesmo vai a nossa Sebastianópolis possuir um desses – arranha céo – que constituem o orgulho da grande urbs americana"). Durante a obra, desabou, matando 25 operários, como lemos na edição de 8/6/1917 do Correio da Manhã ("O edifício em construção do futuro York Hotel rue, sepultando dezenas de operários"), mas depois a construção foi retomada, agora com pilares em granito, "de resistencia a supportar heroicamente a pressão dos cinco andares [foram sete] daquele arranha céo mirim"(Correio da Manhã, 6/10/1917).

Rio Hotel na Praça Tiradentes (1918). Representante de uma primeira geração pré-art déco de prédios, não excessivamente altos, ainda com fachadas decoradas continuando a tendência dos sobrados ecléticos da virada do século. Possui tênues elementos art nouveau (janelas geminadas arredondadas).

No início da década de 1920, a Exposição do Centenário da Independência, de 1922, motivou a construção de dois grandes hotéis: Hotel Glória, inaugurado em tempo, e Hotel Copacabana Palace, que acabou só inaugurado em 1923.

Hotel Copacabana Palace à noite. Projeto de 1921 do arquiteto francês Joseph Gire, projetista também do Hotel Glória e co-projetista do Edifício A Noite e Palácio Laranjeiras. "Com projeto calcado no Hotel Negresco, de Nice, na Riviera Francesa, o Copacabana Palace, em estilo Luís XVI, é um dos primeiros grandes hotéis construídos à beira-mar." (Guia da Arquitetura Eclética no Rio de Janeiro) Inaugurado em 1923. Tombado nos níveis federal, estadual e municipal.

No decorrer da década de 1920 surgiu no então chamado Bairro Serrador, a Cinelândia, uma série de “arranha céos” (como eram chamados na imprensa da época) construídos entre 1925 e 1928. A foto abaixo mostra os sete que davam para a Praça Floriano. Da esquerda para a direita:


  • Cine Odeon de 1924 (como informa uma placa sobre a entrada), em 1927 ampliado para onze andares
  • Cine Império de 1926, demolido para dar lugar ao Centro Empresarial Rio Branco
  • Edifício Heydenreich, "arranha céo" de onze andares de 1926
Edifício Heydenreich (nome grafado erroneamente) considerado um "arranha-céo" pelo Jornal O Brasil de 23 de janeiro de 1927

  • Cine Glória, de 1925, atual Edifício Glória, recentemente retrofitado
  • Cine Pathé, que por pertencer à terceira geração, de prédios art déco, será visto adiante
  • Cine Capitólio, de 1925, com dez pavimentos e estrutura de concreto armado, demolido
  • Antigo Edifício Fontes, atual Centro Empresarial Amadeus Mozart, conhecido como Amarelinho, de 1926 (segundo o site do bar, seria de 1921, mas minhas pesquisas de jornais antigos revelam não ser verdade - ver prova aqui). 
Cinelândia em 1935, com a segunda geração de prédios, a maioria sobrevivente até hoje.


Cinelândia à noite em foto de 1928 da revista O Cruzeiro

A demolição dos cines Império (à direita do Odeon) e Capitólio (entre o Pathé Palace e o Amarelinho) deu lugar a prédios bem mais altos, destoantes.

Atrás desses sete prédios que davam para a Praça Floriano, surgiram durante aquele período outros dois prédios (e posteriormente ainda outros), na Rua Álvaro Alvim:


  • Edifício Itajubá, de 1928, abrigando até hoje o Hotel Itajubá, na época sofisticadíssimo. Com seus 12 pavimentos, o mais alto de todos.
  • Edifício Vaz, na esquina da Rua Álvaro Alvim com Alcindo Guanabara, de linhas afrancesadas, cuja data de inauguração ignoro, mas que existia em 1928, pois aparece na foto da Cinelândia à noite acima.


Edifício Itajubá, com doze pavimentos, atrás da carreira de prédios da Cinelândia, em foto da Revista O Cruzeiro de 1928. Na época o mais alto do grupo de arranha-céus do Quarteirão Serrador.

Hotel Itajubá, o maior arranha-céu do Rio, até o advento do Edifício Guinle

Edifício Vaz

TERCEIRA GERAÇÃO DE EDIFÍCIOS
No final da década de 1920 surge a terceira geração de edifícios cariocas, não mais ecléticos, mas seguindo o estilo art déco, que entrou "em moda", e utilizando a técnica do concreto armadoO art déco é um estilo decorativo e arquitetônico lançado na Exposition Internationalle des Arts Décoratives et Industrielles Modernes, em Paris, em 1925. Trata-se de um estilo moderno, embora anterior ao movimento modernista em arquitetura. Caracteriza-se pelas linhas geométricas e contornos aerodinâmicos.

Os pioneiros dessa geração são:


  • Cine Pathé, na Praça Floriano, 45, de 1927, com 12 pavimentos, em cujos fundos, à Rua Álvaro Alvim, 48, ficava o Natal Hotel, atual Edifício Natal, "installado no mais alto arranha céo da Praça Marechal Floriano" e contando com "dois possantes e rápidos elevadores [...] OTIS" segundo anúncio no Correio da Manhã de 23/12/1928); projetado e construído em 1927
  • Edifício Guinle, na Av. Rio Branco, 135, esquina com a Sete de Setembro; primeiro arranha-céu da Avenida Rio Branco, como lemos em O Malho de maio de 1929, com 16 pavimentos; inaugurado em 1928, deu início da onda de demolições dos prédios da primeira geração da Av. Rio Branco, dos quais hoje só sobrevivem dez.
  • Edifício OK, atual Ribeiro Moreira, na Rua Ronald de Carvalho, 21, esquina com Av. Atlântica, primeiro arranha-céu de Copacabana, com 13 andares mais cobertura, de 1928.

    Primeiro prédio demolido na Av. Rio Branco, esquina com Sete de Setembro, para a construção do Edifício Guinle.

    O Malho de maio de 1929: "É este o primeiro arranha céo inaugurado na Avenida Rio Branco."

    Finalmente, em 1929, é inaugurado o Edifício A Noite, com 22 andares e uma altura de 102 metros, na época de sua inauguração, o maior arranha-céu da América Latina e "o mais alto edifício do mundo construído em concreto armado". O maior arranha-céu do mundo era o Woolworth Building de Nova York, mas não era de concreto armado, e sim em estrutura de aço.

    Edifício A Noite, em foto de 1929 da Revista da Semana, sobressaindo como o mais alto do Rio. Mais ao fundo, o Edifício Guinle, o conjunto de prédios da Cinelândia e, à esquerda, o vazio deixado pela derrubada do Morro do Castelo

    CONCLUSÃO
    Voltando à pergunta inicial: qual foi o primeiro arranha-céu carioca? Se retrocedermos à primeira geração, foi o prédio do Jornal do Brasil (onze andares). Se contarmos a partir da segunda geração, foi o Hotel Itajubá, que se autoproclamava MAIOR ARRANHA-CÉO DO RIO (12 andares). Se só contarmos a partir da terceira geração, foi o Edifício Guinle (16 andares). Se só considerarmos arranha-céu um prédio com mais de vinte andares, então o Edifício A Noite ganha (22 andares). Normalmente ele é considerado o primeiro arranha-céu, devido à sua altura e volume então inéditos, mas não foi um fenômeno isolado, e sim o produto de uma evolução no processo de verticalização. Evolução essa que prosseguiria. 

    Concluímos citando o parágrafo final de uma matéria de 1928 da revista O Cruzeiro que saudava o advento do "arranha-céo": "Saudemos a cidade nova dos arquitetos e dos engenheiros, que cresce para as nuvens; digamos adeus à cidadezinha dos sobrados, à modesta cidade dos mestres de obras, que sucumbe!"

    14.5.18

    O CHAFARIZ DAS SARACURAS, de VIEIRA FAZENDA

    TEXTO EXTRAÍDO DA OBRA ANTIQUALHAS E MEMÓRIAS DO RIO DE JANEIRO DE VIEIRA FAZENDA (VOLUME 1)



    O Chafariz das Saracuras na Praça General Osório, Ipanema, logo depois de restaurado (2010) na época da ótima gestão de Vera Dias à frente da subgerência de monumentos e chafarizes da Prefeitura. Compõe-se de um elemento central formado por uma pirâmide sobre uma bacia com embasamento circular, possuindo uma escadaria intercalada por quatro tanques. A água jorra das saracuras de bronze na base da pirâmide e das tartaruguinhas sobre os tanques.

    INTRODUÇÃO DO EDITOR DO BLOG

    Quando publicou este texto, em 25 de outubro de 1896, Vieira Fazenda vangloriou-se de ter sido uma das raras pessoas leigas que conseguiram entrar no Convento da Ajuda, situado no que viria a ser a Cinelândia, e ver o então impressionante Chafariz das Saracuras, obra de Mestre Valentim, de 1795, que ficava no pátio do convento. Pena que tal monumento não possa ser apreciado, graças aos rigores da clausura, lamenta o autor. A partir de 1911, com a transferência do chafariz para a Praça General Osório, Ipanema  em decorrência da demolição do convento na onda de modernização da Capital Federal  qualquer reles mortal que passasse pela praça pôde, e pode até hoje, ver o tão decantado (e até então misterioso) chafariz. 

    Só que na praça ele perdeu a água (secou), e as saracuras e cágados que o adornavam sumiram. Em 2010, por um breve período, Vera Dias, então na chefia da subgerência de monumentos e chafarizes da Prefeitura, conseguiu ressuscitar o chafariz, repondo as saracuras e cágados, e fazendo com que jorrasse água de novo. As fotos desta postagem são dessa época especial. Depois o chafariz voltou a secar e as saracuras sumiram de novo. Mas vamos ao texto do Vieira Fazenda porque ele, o decano da historiografia carioca, é o astro desta postagem, não eu, mero blogueiro carioca.


    Chafariz das Saracuras, no Convento da Ajuda, no local que depois se tornaria a Cinelândia, demolido em 1911. O chafariz encontra-se na Praça General Osório, Ipanema.

    O CHAFARIZ DAS SARACURAS, por VIEIRA FAZENDA

    Sempre respeitadas e dignas da consideração do nosso povo foram e são, sem engrossamento [=sem puxa-saquismo], atualmente as religiosas da Ajuda. Os poetas e poetastros de outrora as estimavam pela maneira por que eram tratados por ocasião das festas do Natal, quando elas, por entre as grades do convento, lhes atiravam motes, os quais, com prontidão rimados, eram seguidos de doces e guloseimas.

    Nisso eram elas insignes. Quem não conhece os clássicos bolos da mãe-benta, os pastéis de Santa Clara e os brancos suspiros que ainda hoje fazem vir água à boca de muita gente!

    Não venho tratar da história da fundação desse convento, no tempo do bispo d. João da Cruz, e inaugurado pelo bispo d. frei Antônio do Desterro, o qual foi muito auxiliado pelo depois célebre brigadeiro Alpoim, porque só a descrição das festas celebradas encheria toda a folha.

    Hoje é de louvar-se o zelo com que as freiras da Ajuda vão aumentando o convento e restaurando a igreja da padroeira, muito danificada por ocasião da revolta [Revolta da Armada, que encheu a cidade de balas perdidas], e onde se encontra a mais bela e artística imagem da Senhora da Piedade desta cidade, cópia de outra muito célebre na Europa e que figurou na exposição de Munique, obra do famoso artista Sylvius Eberle. [De nada adiantou aumentar o convento, já que pouco depois foi destruído. As freiras passaram para o novo Convento da Ajuda em Vila Isabel - ver aqui).

    Dando de mão [=abrindo mão] ao muito que poderia dizer sobre esse mosteiro, vou tratar de um assunto do qual nunca historiador ou cronista algum se ocupou, incluindo o sr. Moreira de Azevedo, que, aliás, minuciosamente descreveu o interior do convento: trata-se, nada menos, de um artístico e monumental chafariz, que eu chamarei das Saracuras, o qual está erguido no pátio central. 

    Construído de pedra do país, é um objeto de arte digno de ver-se, pois, mostrando o gosto da época, assinala a perícia dos nossos antigos canteiros [=artífices que lavram pedra de cantaria], e tem bonitos ornatos, fundidos em bronze (na Casa do Trem [hoje parte do Museu Histórico Nacional]), e um belo brasão trabalhado em mármore [que se vê até hoje na Praça General Osório].

    Esse chafariz simboliza a gratidão das freiras para com o vice-rei, conde de Resende, que em 1799 concedeu mais um anel d'água, para uso do convento; tais pelo menos são os dizeres do brasão acima referido, onde se acha a inscrição comemorativa desse fato, encimada pelas armas daquele vice-rei.

    Por quatro escadas de cinco degraus sobe-se para o embasamento, que é largo, e sobre o qual se apoia uma grande bacia circular, de cujo centro levantam-se quatro pedestais onde pousam outras tantas saracuras de bronze, as quais lançam pelos bicos na bacia límpida água, que desaparece para ser lançada de novo pela boca de quatro cágados que despejam em quatro tanques colocados nos espaços entre as escadas.

    Tudo isso é coroado por uma pirâmide de três metros, em cujo ápice se vê uma cruz de ferro. 

    Pena que tal monumento não possa ser apreciado, graças aos rigores da clausura. 

    Aí fica porém a descrição, cabendo-me a glória de ter sido o primeiro a falar dessa obra de arte oculta aos olhos dos profanos, a qual leva sem dúvida vantagem às pesadas e enferrujadas fontes públicas inauguradas, há poucos anos, em nossas praças, fontes que primam pela ausência do precioso líquido tão decantado pelo poeta Silva Alvarenga nos versos dedicados a Luís de Vasconcelos! [APOQEOSIS POETICA, acessível aqui]

    Jaz por terra o célebre chafariz das Marrecas [situado na então Rua das Belas Noites, atual Rua das Marrecas; as estátuas de Narciso e Eco do antigo chafariz encontram-se no Jardim Botânico] transformado em portão do quartel da brigada policial. 

    Já não se fala da Fonte dos Boiotas [boiota era a vítima de hidrocele, nada a ver com boiola; esta fonte situava-se na agora chamada Rua Silva Jardim, perto da Praça Tiradentes], nem nas águas férreas de Mata-cavalos [atual Rua do Riachuelo, onde ainda resta um velho chafariz, tombado pelo patrimônio, mas não é este aqui referido], da antiga Chácara da Bica.

    A Carioca tristonha [chafariz do Largo da Carioca] pode dizer eu era assim (quando de suas trinta e seis torneiras jorrava a água em profusão) e estou ficando assim (servindo de pouso a vagabundos). Que pelo menos fique perpetuamente guardada pelo cuidado das religiosas da Ajuda a Fonte das Saracuras, salvo se alguma desapropriação por utilidade pública não vier arrancar o brasão do Conde de Resende, que parece não ter sido tão casmurro, nem tão mau administrador como se pretendeu. 

    Essa é a opinião do paciente investigador dos arquivos da Santa Casa da Misericórdia, onde se encontram provas do zelo, inteligência e perspicácia daquele vice-rei, que foi um dos melhores provedores da Misericórdia.

    Por hoje, disse. 

    25 de outubro de 1896

    1.5.18

    VIAJANTES ESTRANGEIROS NO RIO DE JANEIRO: ROSE DE FREYCINET (1817-18, 1820)

    Vista do Porto do Rio de Janeiro, prancha II do livro Journal du Voyage Autour du Monde (Diário da Viagem ao Redor do Mundo) de Rose de Freycinet

    TEXTO (COM ALGUMAS CORREÇÕES PELO EDITOR DO BLOG) DE LUÍS EDMUNDO PUBLICADO ORIGINALMENTE NO CORREIO DA MANHÃ EM 1, 15 E 22 DE MARÇO DE 1931 E INCLUÍDO DEPOIS SOB O TÍTULO "DIÁRIO DE ROSE DE FREYCINET" NA OBRA RECORDAÇÕES DO RIO ANTIGO


    Rose de Saulces de Freycinet (nome de solteira: Rose-Marie Pinon) nasceu em Saint-Julien-du-Sault, no Yonne (França), em 29 de setembro de 1794.

    Casou-se aos 20 anos, em Paris, com Louis-Claude de Saulces de Freycinet, oficial de marinha, membro da Academia, naturalista, o mesmo que, a bordo da corveta Uranie, por aqui passou, antes da Independência, numa expedição científica ao redor do mundo.

    Não viria incorporada Rose, à tripulação do navio, que às mulheres, sobretudo às desse tempo, não se concediam tais favores. Em sua residência de Toulon, deveria ficar, portanto, até que a nau-expedicionária, cansada de sulcar todos os grandes oceanos do planeta, de novo regressasse ao Mar Mediterrâneo.

    Deveria mas não ficou. Disfarçada em marujo, vamos encontrá-la clandestinamente penetrando o portaló do Uranie, no dia da partida, que foi o de 17 de setembro de 1817, entre diversos homens da equipagem, uma sacola de viagem ao ombro, o coração aos saltos, trêfega, agitada, cautelosa, porém feliz (não sabemos contudo se com o tácito conhecimento ou ignorância do seu jovem marido.)

    Larga o veleiro e afastar-se da costa, mas, só no dia imediato é que o comandante acha de reunir o estado-maior da oficialidade, a fim de apresentar a esposa que, segundo ele disse, a bordo penetrou contra a sua vontade. O formoso “grumete”, no seu uniforme, brejeiro e calmo, aparece sorrindo... Que aventura!

    Os oficiais de bordo, cheios da mais polida e mais sincera galantaria, beijam-lhe a mão, comovidos:

    – Madame...

    E, muito naturalmente, rejubilam, agradecendo a lembrança da providência, tal a de lhes ter dado, para viagem tão áspera e tão longa, aquele sorriso e aquela graça de mulher.

    E a Uranie, rompendo Gibraltar, aproa para a América.

    Ao lado do marido que labuta, Rose pensa em fazer, por sua vez, alguma coisa. E é assim que começa por escrever um Diário, como deveriam ser escritos todos eles – despretensiosamente; registro natural e sincero do que ia aos poucos ocorrendo. Mal pensava ela, entretanto, que, passados cento e poucos anos, quiçá traindo a sua natural vontade, fossem postos em letras de fôrma todos aqueles pensamentos, impressões e palavras que ela escrevia para enviar a uma querida amiga, Madame Carolina de Nanteuil, companheira de infância e que em Toulon residia. [...]

    Dir-se-á que o livro é profundamente indiscreto, uma vez que nem todas as verdades se dizem; mas a indiscrição, no caso, não é da pobre Rose que só escrevia para sua amiga de França, sem prever que o mundo haveria de evoluir, apurando a ganância dos editores e a curiosidade mais do que natural de seus leitores. De qualquer forma, entretanto, a obra legada aos nossos dias é coisa muito interessante, sobretudo se, em consideração, levarmos o que ela representa como depoimento franco, sincero e sem embuços.

    Como todos os que aportaram à magnificência desta baía azul que é a Guanabara, Rose encantou-se, mal transposta a barra, embriagada de luz na paisagem magnífica.

    Chegou pelo escaldante verão de 1817, e foi ancorar no poço, entre Villegaignon e Cobras, anelante e curiosa.

    Veio um escaler pressuroso que ela soube, depois, ser da Casa Real, indagar se o navio que chegava era, na realidade, a corveta Uranie, pelo governo francês, com muita antecipação, anunciada. Era...

    Subiu, então, um oficial português, a bordo, a fim de dar as boas-vindas e com elas a certeza de um franco acolhimento por parte de S. M. el-Rei Nosso Senhor.

    Tendo livre prática a corveta, mandou Freycinet um oficial com a incumbência de visitar o comandante da esquadra lusa ancorada no porto e saber, depois disso, detalhes sobre a cortesia das salvas que deveria dar.

    Rose não se detém em minúcias, mas é curioso ver como era confuso, entre nós, no tempo, o protocolo militar. Freycinet não sabia como agir. Muitos, em suas condições, aqui chegados, não salvaram, por ignorância, ou salvavam e não eram correspondidos. Bougainville que aqui chegou em 1766, como Freycinet, mandou perguntar ao vice-rei Conde da Cunha se, salvando, seriam as suas salvas correspondidas. Resposta do Vice-Rei: – Diga ao Comandante que quando uma pessoa encontra, na rua, uma outra, tira-lhe o chapéu, muitas vezes, sem ter a certeza de ser correspondido...

    Picou-se Bougainville com a resposta, e, assim posto, resolveu guardar a sua cortesia e a sua pólvora. E não salvou.

    Nada de anormal, entretanto, aconteceu por isso. Bougainville e Vice-Rei, dias depois, encontravam-se amistosamente.

    Ao lado de Rose, Arago, cronista da expedição, aturdido ante a paisagem maravilhosa que se desdobrava aos seus olhos, escrevia:

    “Gênova, a soberba, com todos os seu palácios de mármore e jardins; Nápoles, risonha, com as suas águas límpidas, o seu Vesúvio e as suas vilas; Veneza, a rica, com as suas cúpulas e monumentos; o Bósforo, mesmo, com os seus imensos minaretes — nada oferece ao olhar deslumbrado tão magnífico panorama. Eis o Brasil! terra fecunda, entre as mais fecundas, natureza à parte, natureza privilegiada!”

    As ilhas cobertas de verduras emocionavam a francesa que recebia, com volúpia, o látego do sol. Que delícia! A princípio, gostou; porém, depois, achou demasiado o calor. Consolou-se escrevendo:

    Faz muito calor na cidade, mas todos os dias, em torno das 11 da manhã, levanta-se, do porto, um vento fresco que nós, marinheiros, chamamos de brisa leve, que torna o calor suportável e conserva o brilho da vegetação.

    A sua primeira impressão do país, naturalmente, foi boa, impressão essa que perdurou até o dia da partida, embora, num arzinho de piedade e de injustiça, nesse mesmo dia, tenha deixado escapar estas linhas ao escrever à sua amiga e que, certamente, não teria escrito se pensasse em fazer publicar o seu diário: – “pena que tão lindo país não seja colonizado por uma nação ativa e inteligente.”

    Madame de Freycinet, ávida por descer, devorando com os olhos a edênica frescura da paisagem, ficou a bordo, enquanto o marido baixava à terra de onde trouxe boas notícias, entre elas a de haver encontrado a condessa Roquefeille, amiga do casal, emigrada francesa e que vivia no Rio à sombra generosa de el-rei.

    Em pouco, porém, vamos encontrar Rose introduzida, por essa mesma condessa, em casa de algumas figuras da sociedade do tempo. [...]



    Suplemento do Correio da Manhã de 1/3/1931 com a primeira parte do texto de Luís Edmundo sobre Rose de Freycinet


    Rose é recebida em casa do embaixador americano Sumter, com intimidade e prazer. Para que ela veja o paraíso da Tijuca, organiza ele um convescote. Sente-se na organização da folia o dedo amável da brasileira, a mulher de Sumter, que espalha convites entre as senhoras do corpo diplomático.

    Partem todos às cinco horas da manhã. Vão as mulheres dentro de um vasto coche puxado por oito mulas, tilintantes de guizos, envernizadas de suor, saltando a galope, sob o chicote sanhudo do sota, cocheiro garboso e chic. Faz-se mister que a francesa veja também as elegâncias da terra... O Rio não é mais aquela pocilga colonial do tempo do Marquês do Lavradio; melhorou, não muito, mas sempre melhorou alguma coisa; já tem foros de Corte, com um rei e o melhor da sua fidalguia, pelo menos a que pôde sair de Portugal, num dia de grande aperto.

    Rose sente-se confortada e feliz, atirada ao fundo da sua carruagem, olhando em torno os homens em cabriolés ou a cavalo, de chapéu alto e casaca colorida.

    O espetáculo diverte. O carro, aos berros do sota, ao estalar insistente do chicote, pula, rola, avança, precipita-se, vencendo a encosta, sacudido nos seus correões pesados, dançando nas suas molas vindas de Inglaterra. O feminino conteúdo estua, freme, em buquê, transbordando; dá gritinhos e estrídulas risadas que rompem nervosas e altas, em busca dos ecos, na frescura da mata cheirosa e espessa.

    Rose extasia-se diante do que vê, embriaga-se no cenário esplêndido, recordando as florestas descritas por Chateaubriand, em Atala, como diz ela mesmo, gozando a vegetação na sua variedade de tons e esplêndida fartura. Que lindo o Rio de Janeiro! Que paisagem! O espetáculo impressiona-a, seriamente, comove-a. A quantidade surpreendente de flores que repontam de quase todos os galhos e os seus perfumes novos e escandalosos, arrancam-na do mundo das realidades. Rose enleva-se, Rose sonha, Rose sente-se, positivamente, no Éden, ouvindo o canto dos pássaros vestidos de plumagens radiosas. [...]

    Com um lauto almoço na residência de Sumter, fecha-se a matinée gloriosa.

    Madame de Freycinet tendo, largamente, falado, no seu curioso manuscrito, da obra-prima de Deus, a gloriosa Tijuca, achou que deveria falar um pouco da cidade, obra infeliz dos homens, neste canto abandonado da América.

    Não descreveu, porém, o desagradável aspecto das nossas ruas estreitas e sujas, nem a tosca aparência do casario pobre, acaçapado, inexpressivo, como linha de arquitetura, execrável, como princípio de higiene ou conforto. Silencia sobre o caso, o que não deixa de ser de uma amabilidade comovedora; mas não pôde, assim mesmo, deixar de falar na sujeira que viu, em outras partes, declarando que a mesma desconcertava sobretudo, “chez les fidalgos (nobles)”.

    E a propósito conta o que aqui vai cuidadosamente traduzido, palavra por palavra: “uma dama nobre que acabava de tomar uma criada de quarto francesa, quase a pôs fora de casa só porque esta lhe oferecia um vaso cheio d'água, para lavar as mãos. Encolerizada, disse-lhe a mesma dama que uma pessoa da sua qualidade não tinha nunca necessidade de lavar as mãos, atendendo a que nada de sujo tocava; e que isso de lavar era bom para os criados e povo”. [...]

    Fala, a seguir, Rose, da vida de clausura das mulheres cariocas, escravizadas ao ciúme mouro dos maridos, podendo apenas sair para ir à igreja, onde apareciam em “toilettes” de baile...

    E, aproveitando o ensejo, descreve uma dessas cerimônias religiosas que ela compara a uma representação de gala num teatro de França. Passa-se a mesma na Capela Real.

    “A igreja é forrada de panos de seda, todos eles bordados a ouro, e escandalosamente iluminada”. Os sacerdotes, em roupagens de grande preço, chegam e antes de começar o oremus, voltam-se para a assembleia, “qu’ils devraient plutôt fuir que regarder” [de que deveriam se esquivar em vez de olhar], diz ela, a procurar, com os olhos, as pessoas de suas relações...

    Os padres desse tempo – bem diferentes, aliás, dos de hoje – sempre impressionaram mal a todos os estrangeiros que por aqui passaram. [...]

    [Na igreja] Rose, de luneta em punho, passa em revistas as senhoras decotadas, vestidas como para um grande sarau.

    Acha-as lindas. Naturalmente. Um pouco gordotas, pela falta de exercício, um pouco bisonhas, pela falta de sociabilidade, mas, de qualquer forma, bonitas, mostrando a tez morena e grandes olhos negros.

    Em dado momento da cerimônia, conta a francesa que ouviu agradabilíssimas vozes vindas do alto, como um coro do céu. E olhou curiosa a ver se, pelo teto do templo, andavam serafins a cantar. Foi quando alguém, discretamente, murmurou-lhe ao ouvido:

    – São os castrati, madame, mandados buscar à Itália pelo Rei. São de primeira ordem! Apenas custam um pouquinho caro...

    Rose, justamente indignada, fremiu cheia de pasmo e de surpresa, evocando uma crueldade, diz ela, no seu diário: que je n’avais jamais pu concevoir jusqu’a ce jour [jamais pude conceber até este dia]! [...]

    Conheceu Rose de Freycinet o Jardim Botânico. Do livro Recordações do Rio Antigo. [Observe que a pirâmide à esquerda é do Passeio Público, mas o erro é da obra original de Luís Edmundo.]

    Conheceu Rose de Freycinet o Jardim Botânico, que ela nos descreve já com as suas alamedas de palmeiras, risonhamente ajardinado, e, com um campo onde chineses autênticos faziam a plantação do chá. Essa novidade interessou particularmente à madame que, assistindo ao trabalho da colheita, quis conhecer, ainda, o processo de beneficiamento por que passava a planta, antes de ir parar no comércio e na xícara.

    Assim, pôde ver folhas da famosa teácea colhidas no momento e atiradas sobre um tacho de cobre posto sobre um forno aceso. Aí ficaram elas até esquentar, em fogo brando, o que não levou muito tempo. Vieram, depois, os chineses revolvê-las, levando-as para uma mesa. Aí se esfriavam, enrolando. Isso feito, passavam-nas por uma espécie de peneira, com largos furos e onde se separavam as mesmas em tipos ou qualidades. Processo simples, rápido, acrescenta-nos ela.

    Nascera de Dom João a amável lembrança de tentar fazer do Brasil uma espécie de China Americana, exportadora de chá. A terra de tal maneira graciosa não se negou pagar, em excelentes folhas, as magníficas sementes que lhe lançaram. A coisa ia muito bem. Informes da época, insuspeitos e múltiplos, existem mesmo declarando que esse chá era capaz de satisfazer ao mais exigente dos paladares; contudo, se era a terra fecunda e amiga, fraca foi a perseverança dos experimentadores. Em pouco desapareciam do jardim os homens amarelos que mandamos buscar à Mongólia ou ao Hoango-Ho, com os seus calções tufados do Oriente, chapéus rasos, de palha, rabicho e, com eles, o chá.

    Madame de Freycinet passou no Rio o apogeu do verão, com todos os seus incômodos e violentos aguaceiros. A 24 de janeiro vai ela fazer uma visita a madame de Roquefeille, e, logo ao desembarcar, como na famosa tarde em que jantou em casa do seu cônsul, vê que escurece, que cruzam rútilas faíscas pelo céu, ouvindo o trovão desencadeado, que rola em fúria, atordoando, aterrando, infundindo pavor. Não há um carro, uma cadeirinha, uma serpentina, uma liteira, nem mesmo uma porta amiga por onde ela, o marido e o capelão, todos descidos de bordo, possam se enfiar, fugindo ao grande temporal que desaba. Em pouco abre-se o céu e o aguaceiro, em cordas, precipita-se sobre eles. Não dura muito tempo a tormenta mas a cidade transforma-se num verdadeiro lago. Comenta ela, então, a maneira precária por que se fazia, aqui, o escoamento das águas que tornavam, sempre que chovia, as ruas e as praças do Rio de Janeiro perfeitamente intransitáveis.

    Descrevendo a lamentável ocorrência, fala madame nos negros que sempre apareciam, no momento, substituindo os veículos de praça e que tomavam sobre as costas os que não desejavam caminhar com água pelas pernas.

    A Rose, porém, não agradara o singular transporte. Razões que no fundo se explicam por uma delicadeza de pituitária pouco afeita ao que se chamou, no tempo, “cheiro de natureza”, e que outro não era senão esse odor pouco amável que escapa das axilas do pardo ou do negro africano.

    Um padre que os acompanhava, porém, preferindo, ao que parece, o sacrifício do nariz ao das gâmbias [pernas], talvez reumáticas, acabou enforquilhado no pescoço de um negro. Foi um número divertido, muito principalmente quando sabemos que, não se estabelecendo um natural equilíbrio entre montador e montada, quase rolam os dois no lençol do aguaceiro.

    Felizmente, madame de Roquefeille, inquieta pela sorte dos convivas que esperava, recebeu-os com ternura, dando-lhes, com novas roupas, um jantar magnífico que Rose não descreve mas que adivinhamos, composto daqueles numerosíssimos e copiosíssimos pratos que se distribuíam por três ou quatro cobertas, da velha mesa carioca, obrigados a talhados de laranja e pimenta.

    Era esse o jantar de despedida. A simpática diarista interrompia, no seu álbum, a parte dedicada ao Rio de Janeiro. Interrompia-o, apenas.

    Deixando esta cidade, em 1818, Rose de Freycinet a ela voltava pelo mês de junho de 1820.

    APÊNDICE:

    Depois que publiquei esta postagem, o historiador Milton Teixeira enviou por e-mail esta observação interessante: "Ela foi a primeira e única a descrever o primeiro e também único banho de D. João VI, na praia do Caju em 1817". Fui conferir o diário da Rose e de fato lá encontrei (e traduzi ao português):

    Uma das pessoas mais poderosas do reino foi acometida por uma doença grave na perna. Vários médicos portugueses, após esgotarem seus conhecimentos sem produzir nenhum efeito, foram substituídos por um clérigo francês que se metia um pouco em medicina e sobretudo em curar feridas. Ele convenceu a pessoa ilustre a lavar sua perna. Foi difícil decidir, pois esse remédio parecia incomum. Ele conseguiu e, por uma ninharia para fechar a ferida, a doença desapareceu em poucos dias. Mas uma vez curada, ele parou de lavar a perna e a doença reapareceu. O monge foi então chamado de volta. Ele recomendou o mesmo remédio, que pareceu tão desagradável que o médico foi dispensado com seus remédios peculiares. E durante nossa estadia no Rio, essa personagem importante não podia ainda sair, imobilizada pela mesma doença na perna.

    Rose não cita nominalmente D. João, referindo-se a "une des personnes des plus puissantes du royaume", "uma das pessoas mais poderosas do reino", mas pela história pode ter sido ele mesmo!!! 

    21.4.18

    HOMENAGEM A TIRADENTES

    PATRONO DAS POLÍCIAS MILITARES BRASILEIRAS, COM FOTOS DA SUA ESTÁTUA DIANTE DO PALÁCIO TIRADENTES (ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO RIO DE JANEIRO)



    ► Trechos do Romance XXXI do Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles:

    Por aqui passava um homem
    — e como o povo se ria! —
    que não passava de Alferes
    de cavalaria!

    “Faremos a mesma coisa
    que fez a América Inglesa!”
    E bradava: “Há de ser nossa
    tanta riqueza!”

    Por aqui passava um homem
    — e como o povo se ria! —
    Liberdade ainda que tarde
    nos prometia.

    E cavalgava o machinho.
    E a marcha era tão segura
    que uns diziam: “Que coragem!”
    E outros: “Que loucura!”

    Mas ninguém mais se está rindo
    pois talvez ainda aconteça
    que ele por aqui não volte,
    ou que volte sem cabeça...


    ► Trecho do ótimo livro Praça Tiradentes de Roberta Oliveira:


    Não foi exatamente na Praça Tiradentes e muito menos em Minas Gerais, como muitos pensam, que Tiradentes morreu. Tendo nas mãos um mapa da Biblioteca Nacional [ver abaixo], datado de 1785-1760, o historiador Milton Teixeira mostra o local exato da execução. Marcado pela palavra “forca”, este ficaria a algumas centenas de metros da atual Praça Tiradentes, mais precisamente no que hoje é a esquina da Avenida Passos com Rua Buenos Aires. Através do mapa e de alguns relatos históricos, também é possível reconstituir as últimas passagens da vida de Tiradentes. Milton conta que o alferes teria sido preso em 10 de maio de 1789, numa casa na Rua dos Latoeiros (atual Rua Gonçalves Dias), onde teria se escondido depois de passar um tempo na Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens (na atual rua da Alfândega). Tiradentes foi levado então para a Ilha das Cobras, onde passou a ocupar a cela número 3 do cubículo 5. Lá, foi submetido a vários interrogatórios, sempre negando a sua ligação com a Conjuração Mineira. Forçado pelas circunstâncias — todos os seus colegas o apontaram como líder do movimento — acabou assumindo o envolvimento. [...] Em sua sentença, a rainha Maria I foi taxativa: dos dez envolvidos, nove seriam presos e um seria condenado à morte. “Claro que sobrou para Tiradentes, que, além de ser o mais pobre entre os dez, ainda era dentista, profissão que parece nunca ter sido vista com bons olhos pelos portugueses”, brinca Milton. [...]

    Detalhe do mapa de 1760 que mostra o local onde ficava a polé ou forca (seta). A Sé Nova à esquerda da seta não chegou a ser construída e no seu lugar está o atual Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Um pouco embaixo à esquerda dele, a Igreja de São Francisco de Paula e mais abaixo a de Nossa Senhora do Rosário, que ainda existem. A Rua do Alecrim (que era um prolongamento da Rua Nova do Hospíco) hoje é a Buenos Aires. O mapa inteiro pode ser visto aqui.


    Não foi na Ilha das Cobras que Tiradentes passou sua última noite, e sim na Cadeia, edifício que ficava onde hoje está o Palácio Tiradentes; não por acaso, ali foi posta uma estátua do inconfidente. Vestido com uma camisa de onze varas e, segundo a lenda, depois de ter beijado as mãos e os pés do seu carrasco, Tiradentes deixou a cadeia na manhã de 21 de abril de 1792. Ele teria, então, seguido pela Rua da Cadeia (atual Rua da Assembléia), chegado ao Largo da Carioca, continuado pela Rua do Piolho (atual Rua da Carioca) até o campo da Lampadosa, assistido à missa na igreja que, na época, dava nome ao local e, finalmente, enforcado na esquina da Avenida Passos com Rua Buenos Aires. “Tiradentes nunca teve barba, bigode e cabelão, como costuma ser retratado em quadros e, no momento da execução, estava careca. Mas como a República chegou ao Brasil com um caráter agnóstico, o principal objetivo foi substituir a imagem dos santos pela das figuras pátrias. A de Tiradentes era a que mais se parecia com a de Cristo, porque, enquanto este veio para nos salvar, aquele teria vindo para nos libertar”, diz Milton, lembrando que, depois da execução, o corpo foi esquartejado na Casa do Trem (atual Museu Histórico Nacional) e cada pedaço enviado para lugares onde ele tivesse pregado suas idéias libertárias.


    ► Texto extraído do livro TIRADENTES CARIOCA de André Luís Mansur e Ronaldo Morais:
    Tiradentes é um dos personagens mais polêmicos da História do Brasil, graças, principalmente, à sua transformação em mártir da então recém-criada república brasileira, em 1889. Os novos líderes do país precisavam de um símbolo dos novos tempos, algo ou alguém que marcasse a ruptura com o passado monárquico, ainda descendente da dinastia portuguesa dos Bragança. Tiradentes surge como este símbolo, ideal não apenas por ter lutado pela liberdade, nos moldes da República dos Estados Unidos da América do Norte, mas também por ter sido condenado à morte por D. Maria I, bisavó de Dom Pedro II, o imperador que os republicanos haviam acabado de destronar.

    O resto, todo mundo conhece, ou já ouviu falar. Embora não exista nenhuma descrição de seu rosto, deram-lhe cabelos e barbas longas, o que seria impossível por Tiradentes ser militar, mas aí já estava explícita a vontade de compará-lo a Jesus Cristo (embora também não haja nenhuma descrição de seu rosto), com direito a martírio, execução pública e até a um Judas. “O processo foi facilitado por não ter a história registrado nenhum retrato seu. Restaram apenas algumas indicações nos autos. A idealização de seu rosto passou a ser feita não só pelos artistas positivistas, mas também pelos caricaturistas das revistas ilustradas da época” ” (Revista de História da Biblioteca Nacional, artigo “Mito Universal”, de José Murilo de Carvalho)




    ► Texto publicado na REVISTA ILLUSTRADA de abril de 1892, ano do centenário da morte do inconfidente:

    O centenário de Tiradentes, o mártir da Inconfidência Mineira, representa para o moderno Brasil republicano a maior data da sua história.

    Vindo das camadas inferiores, o mero alferes de milícia bem cedo ainda concebeu o plano grandioso de libertar a nossa cara pátria de um governo medíocre e indecoroso. E, impelido pela beleza desta conquista, que lhe atestava verdadeira intuição da política americana, deixou-se levar ao patíbulo, porque tinha certeza que a sua inquisição era mais do que um passo para a vitória do seu Ideal. E de fato. Como as plantas necessitam de orvalho para o seu desenvolvimento, a Ideia necessita de sangue para o seu triunfo. É o alimento, é a seiva que produz e produziu as árvores frondosas, à sombra das quais as caravanas descansam.

    O Brasil, hoje República, celebra o centenário do desaparecimento do seu primeiro mártir. Tocante lição de história pátria e oxalá que tão nobre, tão extraordinário exemplo de altruísmo, posso inspirar melhor aqueles que nos governam, para a felicidade deste país, que ele tanto amou.

    Cumpre, pois, aos nossos homens, respeitar pela lei, pela história e pela pátria, a figura simbólica, misto de amor e de liberdade, de quem para nós é mais do que um princípio – é uma força propulsora.


    Antônio Parreiras, A Prisão de Tiradentes, 1914, óleo sobre tela, acervo do Museu Julio de Castilhos

    ► A construção do mito de Tiradentes (trecho do estudo A Prisão de Tiradentes de Ana Celina Figueira da Silva, David Kura Minuzzo e Eliane Muratore, cuja íntegra você pode acessar aqui)

    As várias representações de Tiradentes ao longo da história do Brasil não são de um homem comum de sua época, mas de um personagem idealizado. É essa idealização que encontramos, de certa forma, na pintura A Prisão de Tiradentes; e para que possamos melhor avaliar a leitura do inconfidente proposta por Parreiras na obra, é necessário antes analisar como se formou o mito do herói nacional durante o período republicano.

    Tiradentes é um dos mais bem-sucedidos mitos heroicos que o Brasil criou. José Murilo de Carvalho [em A formação das Almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990] nos mostra que o sucesso da construção desse mito está na associação feita de Tiradentes à figura de Jesus Cristo e o martírio deste.

    Após a proclamação da República os republicanos enfrentaram dificuldade em encontrar a figura de um herói que representasse a sua causa e tivesse a “cara da nação”. Os principais participantes do evento de 15 de novembro não correspondiam à imagem que se pretendia criar de herói da República. Deodoro da Fonseca era militar demais e sua aparência lembrava a do outro ilustre velho, o imperador; Benjamin Constant não era líder militar nem civil e Floriano Peixoto era identificado com o jacobinismo republicano, que não correspondia ao tipo de República que estava se construindo. [...]

    Pode-se dizer que a violência revolucionária dos inconfidentes permaneceu latente, porém a violência real, a que realmente aconteceu, foi a dos carrascos de Tiradentes. Portanto, Tiradentes foi somente uma vítima. Também Tiradentes prestava-se ao papel de herói, pelo paradoxo de que durante o tempo que passou na cadeia, até seu enforcamento em 21 de abril de 1792, tornara-se místico. A coragem demonstrada em seus últimos momentos de vida provinha do fervor religioso, assumira a postura de mártir, a exemplo de Jesus Cristo. Essa imagem mítica de Tiradentes é inicialmente construída com a obra História da Conjuração Mineira, de Joaquim Norberto de Souza Silva, em 1873. Souza Silva era alinhado à monarquia e para minimizar o papel de Tiradentes no movimento da Inconfidência, relatara as transformações ocorridas em sua personalidade e comportamento durante o período de reclusão. [...]

    Os republicanos, a princípio não aceitaram a figura de um Tiradentes místico. Porém, Carvalho nos informa que a partir do livro de Souza Silva, tanto a tradição oral, como as representações plásticas e literárias de Tiradentes e até mesmo as exaltações políticas sobre o inconfidente, passaram a utilizar cada vez mais a simbologia religiosa e a aproximá-lo da figura de Cristo. Como não existia nenhum retrato de Tiradentes, as representações iconográficas, que passaram a ser feitas dele, basearam-se na descrição mística feita por Souza Silva em sua obra. Assim, um Tiradentes semelhante a Jesus Cristo, de barba e cabelos longos é a primeira representação pictórica do inconfidente feita por Décio Villares, em 1890 [que você pode ver aqui]. Trata-se de uma litogravura, onde aparece o busto de Tiradentes com a corda ao pescoço, ornado com “a palma do martírio e os louros da vitória. Barba e cabelos longos, ar sereno, olhar no infinito, era a própria imagem de Cristo”.

    Durante o final do século XVIII e início do XIX são produzidas obras de arte dedicadas a Tiradentes, ressaltando a simbologia cristã; essas obras são: Martírio de Tiradentes, de Aurélio Figueiredo, 1893 [aqui]; Tiradentes esquartejado, de Pedro Américo, 1893 [aqui]; A Inconfidência, de Antônio Parreiras, 1901 e a Leitura da sentença dos inconfidentes, de Eduardo de Sá, este sem data [aqui].

    Com a idealização de Tiradentes como mártir cristão, ele passou a ser visto não como um herói republicano radical, mas como herói cívico religioso, e foi transformado em herói nacional. [...]


    Tiradentes na revista infantil Tico Tico de 30/5/1906