18.9.17

VILA BENJAMIN CONSTANT (URCA)



O Rio é cheio de surpresas e de cantinhos que quase ninguém conhece. Um deles é a Vila Benjamin Constant. Aposto que você nem imagina onde fica! No início do século XX existiu uma Villa Benjamin Constant na rua de mesmo nome no bairro da Glória, mas não é dela que estou falando. A vila a que me refiro fica atrás do Instituto Benjamin Constant, na encosta do Morro da Babilônia, na Urca. Se você olhar no Google Maps, a vila está lá, mas anônima. Quem passa pela entrada da vila na Rua Dr. Xavier Sigaud não imagina que ela existe. Passei mil vezes lá sem nunca entrar e só entrei um belo dia porque sou enxerido e tenho mania de explorar tudo que é canto (menos, é claro, aqueles dominados pelo tráfico). Originalmente foi criada para abrigar funcionários e alunos do Instituto numa época em que os transportes eram precários e tudo era muito longe (década de 1940 segundo algumas fontes). A rigor, quando um ocupante se aposentava ou falecia, o imóvel deveria ser desocupado, já que o terreno pertencia à União – depois passou para a Prefeitura, que tenta regularizar a posse das casas – mas na prática os “herdeiros” dos moradores originais foram ficando, num fenômeno parecido ao das casas do Horto. Em 1998 a vila foi beneficiada pelo Programa Bairrinho da Prefeitura (O Globo, 7/5/98). Há quem considere a vila uma “favela”. O Jornal do Brasil, em matéria de 6/9/1999, chama-a de “Favela VIP” da Urca (“A Urca, quem diria, já tem a sua favela”), mas na verdade não tem as características de favela que são a construção de casas irregulares, sem projeto nem arruamento, em terreno invadido. A vila tem arruamento. As ruas até têm nomes – de flores! A vila não resultou de invasão. E as casas são bonitinhas, não são de tijolos aparentes. É bem verdade que tem umas vielas, mas Veneza também tem! Vamos às fotos para que você tire sua própria conclusão.


Instituto Benjamin Constant visto do alto da vila

Rua Bouganville da Urca

A rua principal da vila

Varanda & fiação

O gato

Descendo

Janela na Rua das Orquídeas da Urca

Escadinha

Viela

Contraste arquitetônico: as casas da vila e o prédio atrás

5.9.17

CAPELA DE NOSSA SENHORA DA PENHA EM COSMOS


O bairro de Cosmos, situado na Zona Oeste, entre Campo Grande e Santa Cruz, originou-se de um loteamento, Vila Igaratá, da Companhia Immobiliaria Kosmos, que começou a ser anunciado nos jornais em 1928, depois de inaugurada a estação ferroviária de mesmo nome em terreno cedido pela Companhia. 

Anúncio de O Globo de 16/6/1928 de vários loteamentos da Companhia Imobiliária Kosmos, entre eles a Vila Igaratá, que deu origem ao bairro de Cosmos

Pelo que o editor deste blog pôde observar em suas andanças, o bairro é um microcosmo da cidade do Rio de Janeiro, com todo o espectro de construções, desde casas modernas de classe média, com bons carros estacionados, até áreas favelizadas (imagem do Street View abaixo), e todo o resto: comércio de bairro (para o comércio mais sofisticado suponho que o morador vá a Campo Grande, ao lado), as igrejinhas católicas, os templos evangélicos, etc. Para uma cidade quente como o Rio, achei a arborização incipiente (a Companhia, ao fazer o arruamento, bem que poderia ter plantado árvores; as que vi são “jovens” ou, quando mais frondosas, estão nos terrenos particulares), e encontrei as “mazelas” próprias dos bairros menos assistidos pelo poder público: calçadas irregulares, carros obstruindo calçadas, algum lixo ao ar livre aguardando remoção. O bairro parece pacato, tranquilo, sente-se uma atmosfera comunitária, bem aparente no domingo, quando a igreja e a praça lotam, as pessoas circulam, enchem os bares, ou ficam nas janelas ou na frente das casas.


Durante décadas as ruínas da capela de Nossa Senhora da Penha, sobre um penhasco como é próprio dos templos dedicados a essa denominação da mãe de Jesus, deram origem a uma série de lendas urbanas: de que um padre teria sido assassinado no local e a igreja, incendiada, ou que a imagem da santa foi roubada e a dificuldade de acesso ao morro teria afastado os fiéis, como conta a reportagem “Capela de Nossa Senhora da Penha na Zona Oeste passa por restauração” de Simone Candida publicada em O Globo de 16/4/2017 (para acessar clique aqui). Mas na verdade a capela foi vandalizada por um grupo de arruaceiros em 17 de fevereiro de 1972 como noticiado na imprensa da época. Por exemplo, matéria publicada no dia seguinte no Diário de Notícias intitulada “Vândalos depredam e incendeiam a capela” informava que “perversos delinquentes depredaram e incendiaram, ontem, a Capela de Nossa Senhora da Penha, situada na Estrada da Paciência, 1.149, em Cosmos. [...] A polícia da 35a DP está empenhada em prender os sacrílegos [...]”.

Diário de Notícias, 18/2/1972 

Jornal do Brasil, mesma data

Qual seria a idade dessa capela? Outra lenda urbana associa a sua construção a uma imagem de Nossa Senhora da Penha encontrada em 1917 por dois trabalhadores rurais (na época a área ainda era zona rural) “ao pé de um coqueiro no alto do morro. A estátua foi levada para a casa deles, a uns 300 metros de distância, mas, inexplicavelmente, ela sumiu e voltou a aparecer junto à mesma árvore. [...] Uma capelinha improvisada acabou sendo erguida no local, para abrigar a santa.” (O Globo, matéria citada). Mas o pesquisador Isra Toledo Tov acredita que seja bem mais antiga, defendendo a tese de que ela pertencia à antiga Fazenda da Mata da Paciência, que entre os séculos XVII e XIX ocupava terras que, nos dias atuais, correspondem aos bairros de Paciência, Inhoaíba e Manguariba, além de parte de Guaratiba, como lemos nessa mesma matéria de O Globo. De fato, um mapa do Município Neutro (depois Distrito Federal, depois Estado da Guanabara, depois Município do Rio de Janeiro) da década de 1870, que pode ser acessado na Biblioteca Nacional Digital, mostra que naquela época já existia uma capela dedicada a Nossa Senhora da Penha no local. 

Trecho do mapa do Município Neutro da década de 1870 mostrando que a capela já existia (seta) 

Outra informação que atesta a antiguidade da capela é uma nota na revista O Malho de 20 de fevereiro de 1929 sobre a inauguração, em novembro do ano anterior, do novo altar-mor da capela, informando que lá “se venera uma antiquíssima imagem de Nossa Senhora da Penha”. Se em 1929 já era “antiquíssima”, dá para imaginar quão antiga seria a capela!

O Malho de 20/2/1929

Após permanecer em ruínas por quase meio século, enfim essa graciosa capela vem sendo dignamente restaurada, com base em fotografias antigas, graças ao esforço do padre da paróquia e do trabalho voluntário e contribuições dos moradores, já que as obras não contam com nenhum patrocínio empresarial ou apoio institucional. Os paroquianos de Cosmos estão de parabéns por essa iniciativa que mostra que, mesmo na falta de verbas, recursos, dotações, gratificações, propinas, emolumentos, quando existe vontade férrea, a fé realmente remove montanhas. Para o pessoal que vive resmungando (ou fazendo greve) sem mover uma palha para mudar a realidade, o afã do pessoal do subúrbio de Cosmo serve de edificante lição.

E agora vamos às fotografias tiradas numa bonita segunda-feira de sol invernal, após uma primeira tentativa frustrada no domingo, quando deparei com o acesso à igreja fechado.

Subindo o morrinho

A capela: lateral

Árvore e vista

Obras da escadaria

Interior da capela

Janela ogival

Pedra fundamental

Fachada da capela

Capela de Nossa Senhora da Penha

O cruzeiro

Fiação

Paróquia Santa Sofia (lateral) com afresco da Santa Ceia bem descascado

Casinhas de subúrbio: quais delas ainda remontam ao loteamento original de 1929?

30.8.17

ATRAVESSANDO A BAÍA: PRAIA DE ITAIPU, NITERÓI




Há quem diga que o que Niterói tem de melhor é a vista para o Rio. Claro que esta é uma piada de mau gosto. Niterói tem muito mais – Fortaleza de Santa Cruz, MAC, Parque da Cidade, Praias Oceânicas (e um IDH superior ao carioca!) – mas tem também a vista privilegiada para o Rio de Janeiro. Da Praia de Itaipu você tem uma visão panorâmica da silhueta das montanhas cariocas e pode ver o sol se pôr sobre a Cidade Maravilhosa. Em Itaipu você vê as ruínas do antigo Recolhimento de Santa Teresa, fundado em 1764 para receber “viúvas, órfãs, prostitutas arrependidas, moças e esposas desprovidas circunstancialmente da  proteção masculina e mulheres que desejavam seguir a vida religiosa sem, no entanto, fazer votos perpétuos, e, também, aquelas que haviam cometido adultério e filhas insubmissas que, como punição e castigo de culpas, eram afastadas da sociedade para viver em clausura e devoção religiosa de forma a purificar-se e readquirir a honra”, conforme informa o folheto oferecido na entrada. A praia, pequena, medindo uns 700 metros, é limitada pelo canal da Lagoa de Itaipu numa extremidade e pelo rochedo que a separa da Praia de Itacoatiara na outra.

O Recolhimento é citado na pág. 96 do Tomo IV das Memórias Históricas do Rio de Janeiro de José de Souza Azevedo Pizarro e Araújo, de 1820: "Unido á Matriz existe um Recolhimento para mulheres, a quem agrada o retiro do Seculo [vida secular], ou algumas circunstâncias obrigam à habita-lo por castigo de culpas." 

Praia “selvagem”, pouco urbanizada, sem rua nem calçada. As poucas casas, concentradas na extremidade sul, na maioria bares e restaurantes, dão direto na praia, mesas e cadeiras espalhadas na areia. Barcos de pesca coloridos estacionados na areia dão um toque pitoresco. No mar relativamente calmo daria até para nadar não fosse a imprudência de jet skis. Um ambiente aprazível onde o niteroiense ou mesmo o visitante do Rio pode passar momentos de descontração, sobretudo nos dias agradáveis fora do verão quando faz sol sem calor intenso – e no verão a praia deve ficar insuportavelmente lotada. Aos sem-carro como eu: para ir ou voltar, peguem a linha 38, que liga o terminal próximo às barcas a Itaipu, passando também por Itacoatiara. Não façam a besteira que fiz de voltar pela linha intermunicipal que dá uma volta terrível, passando por Tribobó.

Capela do antigo Recolhimento de Santa Teresa, atual Museu de Arqueologia de Itaipu, aberto de terça a sexta de 10 às 17 e aos sábados, domingos e feriados, de 9 às 17h

Ruínas do antigo Recolhimento de Santa Teresa

Recolhimento de Santa Teresa: janela com moldura de cantaria

O antigo recolhimento foi construído em alvenaria de pedra, com molduras de cantaria e argamassa composta por areia, conchas trituradas e óleo de baleia.



Mar relativamente calmo

Bares rústicos: o da direita não aceita cartões, o da esquerda, sim.

Barcos de pesca...

... coloridos: toque pitoresco

Bares e restaurantes dão direto na praia, mesas e cadeiras espalhadas na areia: ambiente descontraído.

Saxofonista do bar do Jorginho (são ótimos os pastéis de camarões lá)

Pôr do sol

Pôr do sol & crianças

Visão panorâmica da silhueta das montanhas cariocas. Fotos do editor do blog e sua esposa. Clique no label Niterói abaixo para ver outras postagens sobre essa cidade vizinha do Rio.

VÍDEO DE CAU BARATA SOBRE O MUSEU DE ARQUEOLOGIA:


1.8.17

VIAJANTES ESTRANGEIROS NO RIO DE JANEIRO: FRANÇOIS FROGER (1695)


TEXTO EXTRAÍDO DA OBRA O RIO DE JANEIRO DE ANTANHO: IMPRESSÕES DE VIAJANTES ESTRANGEIROS DE AFONSO DE E. TAUNAY. ILUSTRAÇÕES EXTRAÍDAS DA EDIÇÃO ORIGINAL DE RELATION DU VOYAGE DE MR. DE GENNES AU DETROIT DE MAGELLAN (RELATO DA VIAGEM DO SR. DE GENNES AO ESTREITO DE MAGALHÃES) DE FRANÇOIS FROGER

Folha de rosto da edição original da obra de Froger de 1698

Poucas épocas na História ocorrem em que franceses e ingleses tenham batalhado como no reinado de Luiz XIV, isto é fato de todos sabido. Na história da luta multissecular das duas grandes nações, há mais de um século reconciliadas e mais tarde unidas pela comunhão dos esforços tremendos e provações da Grande Guerra, uma das fases de mais ativa hostilidade, foi certamente a dos últimos anos seiscentistas, sob Guilherme III, de Orange, o inimigo acérrimo do Rei Sol.

Derrotada a frota francesa pela anglo-holandesa, no encontro da Hogue, onde o ilustre Tourville perdeu a batalha, mas não a justa fama de grande cabo de guerra, batidas as esquadras de França, rendidas numerosas praças coloniais, ansiavam os marujos de Luiz XIV por uma desforra dos adversários seculares e irredutíveis.

Entre estes, um lugar tenente de Vivonne, educado na escola dos heróis que eram Duquesne, Duguay Trouin e Jean Bart: o comandante De Gennes.

Aventuroso e valente, engenheiro naval de real mérito, autor de diversos inventos, era muito estimado do próprio Rei: "Inventara, diz o padre Labat, citado no Dictionnaire Universel du XIXme siècle, várias máquinas muito belas, muito curiosas e muito úteis, canhões e obuseiros de novo sistema, flechas destinadas a rasgar o velame dos navios, relógios sem molas e contrapeso, um pavão que andava e digeria (o que vi), uma bola achatada nos dois polos que subia por si só sobre um plano quase perpendicular e descia suavemente e sem cair, e uma infinidade de outras cousas, que o rei examinou com prazer".

Ocorreu a De Gennes em 1693, já então capitão de fragata, a ideia de fundar uma Companha de Comércio para a colonização francesa no Estreito de Magalhães. Pedindo subsídios régios teve o mais favorável deferimento. Deu-lhe Luiz XIV seis navios de alto bordo, tripulados por 784 homens, com os quais, em 1695, zarpou de La Rochelle.

Percorrendo a costa africana ocidental, aproveitou o navegante a ocasião para expugnar [conquistar] os estabelecimentos britânicos da Gâmbia (Fort James); Daí zarpando em direção ao Brasil, aportou em S. Vicente do Cabo Verde, onde desembarcou os numerosíssimos doentes de febres e escorbuto. Comprou em Santo Antão provisões em abundância. A quatro de outubro de 1695 rumava para o Rio de Janeiro, em cuja barra apareceu a 30 de Novembro.

A cinco de Janeiro seguinte partia a sua esquadra para o estreito magalhânico; sofreu nos mares do Sul tremendas tempestades. Atingindo a extremidade do continente, tiveram De Gennes e os seus comandados o critério de verificar que o estabelecimento de um presídio [fortaleza] naqueles páramos desolados seria a mais calamitosa tentativa, tanto mais quanto os recursos da frota se apresentavam escassos. Assim, pois, decidiu o conselho de guerra o regresso à França.

A 16 de maio de 1696 navegava a divisão em águas de Cabo Frio, sabendo De Gennes que as autoridades portuguesas lhe não consentiriam, provavelmente, voltar a fundear no Rio de Janeiro. Demorou-se algumas semanas naquelas paragens e afinal rumou para a Bahia, onde, a 20 de julho, foi recebido afetivamente e de onde zarpou em direção às Antilhas. A 21 de abril de 1697 entrava novamente em La Rochelle.

Dessa jornada naval existe interessante documento: o livro editado em Paris em 1698 por Michel Brunet: Rélation d'un voyage fait en 1695, 1696 et 1697 aux Côtes d'Afrique, Détroit de Magellan, Brésil, Cayenne et Iles Antilles, par une, escadre des Vaisseaux du Roy, commandée par monsieur De Gennes, fait par le Sieur Froger, Ingénieur Volontaire sur le vaisseau le "Faucon Anglais", enrichie de grand nombre de figures dessinées sur les lieux (Relação de uma viagem feita em 1695, 1696 e 1697 às costas da África, Estreito de Magalhães, Brasil, Caiena e Ilhas Antilhas pela esquadra de embarcações do rei, comandada pelo senhor De Gennes, feita pelo Sr. Froger, engenheiro voluntário na nau "Falcão Inglês", enriquecida de um grande número de figuras desenhadas no local).

Conhecemos a tiragem feita pelo livreiro Nicolau le Gras, em 1699. Comprara este os direitos autorais de Nicolau de Fer, cessionário do autor.

Eram de Fer e Guilherme de I'Isle, então, as autoridades máximas da cartografia francesa. "Esta obra, diz a Grande Encyclopedie, tem o seu valor sob o ponto de vista da História natural e da Hidrografia." Ignoramos se existe terceira edição francesa; honra-se, porém, com uma tradução inglesa, impressa em 1698, por Gillyflower.

Entree de la Rivière de Ianeyro à la Côte du Brésil (Entrada do Rio de Janeiro na costa do Brasil).  O mapa mostra claramente que na época ainda se acreditava que a Baía da Guanabara fosse a embocadura de um grande rio, daí a designação Rio de Janeiro.
Não é muito o que Froger escreve acerca do nosso país, mas não deixam de ser curiosas suas informações. Seu livro, hoje raridade bibliográfica, não é dos que se acham ao alcance de todos.

A 29 de novembro de 1695 chegava a esquadra de De Gennes à altura de Cabo Frio e a 30 à barra do Rio de Janeiro, onde pediu prático. Custaram tanto os de terra a responder que o comandante ordenou que os seus vasos ficassem bordejando, enquanto mandava um dos oficiais entender-se com as autoridades do porto. Às seis horas da tarde de primeiro de dezembro voltava o emissário contando que havia grande alvoroto na cidade.

Não se sabia, exatamente, no Rio de Janeiro, se reinava ou não guerra entre a França e Portugal; a chegada desde alguns dias do bergantim da esquadra tal pânico provocara, que tinham as famílias começado a retirar-se para o campo, carregando as melhores alfaias.

No dia seguinte souberam os franceses por um oficial português que podiam ancorar ao alcance imediato dos canhões de Santa Cruz. Havia brisa forte, porém, e os navios garraram para dentro do porto. Imediatamente sobre eles atiraram as baterias de terra. Não responderam os franceses, que conseguiram fundear pouco depois. Voltou o oficial trazendo piloto e médico. Estava o governador muito hesitante se devia, ou não, deixar que a esquadra viesse ao fundeadouro. Alegava a existência de numerosos enfermos a bordo e receava o contágio.

Era ele Sebastião de Castro Caldas, personagem mais tarde muito conhecido pelo papel que lhe coube na chamada "Guerra dos Mascates".

Afinal, avisou o ajudante de ordens que iria a Santa Cruz [a fortaleza] notificar a permissão de passagem dos vasos franceses.

Como, porém, houvessem estes aparelhado antes de sua chegada à fortaleza, ainda receberam mais de dez tiros, dos quais um por um triz não alcança o paiol de pólvora da capitania.

Assim mesmo, veio ordem para que dous dos maiores navios ficassem fora da barra; havia expressas instruções reais para que não entrassem no porto mais de três barcos de guerra estrangeiros. Assim, partiram para a Ilha Grande.

Apenas chegado, desembarcou o sr. De Gennes e foi queixar-se ao governador dos balázios recebidos. Que praxe era esta de se tratarem por tal forma as naus de uma potência amiga?

Respondeu-lhe Castro Caldas dizendo-lhe que desejara consentir na entrada franca da frota. Havia, porém, muita gente contrária a tal licença e grande fermentação popular, perigosa mesmo, para a manutenção da ordem. Em todo caso, permitia que os doentes desembarcassem na Praia Grande [Niterói] e prometia-lhes a assistência, que lhe fosse possível.

Deu-se, então, novo incidente, característico da vaidade das pragmáticas e regimentos. Perguntou o comandante francês se acaso salvasse de terra lhe responderiam tiro por tiro. Respondeu-lhe o governador que absolutamente não; daria quando muito alguns disparos, por lhe caber a homenagem. À vista de semelhante resposta, resolveu o francês não salvar. A quatro desembarcaram os escorbúticos, e a esquadra demorou-se nas águas guanabarinas até 27 de dezembro, fazendo grandes compras de mantimentos: carnes salgadas, farinha de mandioca, açúcar, arroz, milho, tapioca, etc.

 Traziam da África os navios franceses grande número de negros escravos, então negociados, salvo os mais robustos, destinados a substituir os marinheiros brancos dizimados na costa da Gâmbia, pela febre amarela. Só a capitania, o "Faucon anglais", perdera mais de cinquenta homens!

Em todos os fornecimentos, pretende Froger, foram os franceses muito prejudicados pela tratantice do governador, que proibira aos particulares comerciar com a esquadra, querendo ser o único comprador e vendedor. "Vimo-nos obrigados a lhe ceder as nossas mercadorias muito mais barato do que pelos preços da Europa".

Dá-lhe isto o ensejo de lembrar a má fé da nação lusa, "em que, afirma, predominavam os indivíduos de raça judaica na proporção de mais de três quartos".

Do Rio de Janeiro, "grande cidade bem construída e de excelente aspecto, estendendo-se pela praia desde o magnífico Mosteiro de São Bento até ao não menos monumental Colégio dos Jesuítas", teve o viajante boa impressão, mas não dos fluminenses.

"Bem vestidos, gravibundos como a gente de sua nação, se mostram, ricos, amantes do tráfico, possuem numerosos escravos negros, fora várias famílias de índios que empregam nos engenhos de açúcar, mas a quem não querem escravizar, por serem filhos da terra". (em francês, como vemos na página 71 ao lado: "Ses habitants sont propres, & d'une gravité ordinaire à leus Nation; ils sont riches & aiment le trafic: ils ont grand nombre d'Esclaves noirs, outre plusieurs familles entieres d'Indiens qu'ils entretiennent dans leurs sucreries, & à qui ils ne veulent pas ôter la literté, comme étans naturels du Païs.)

Nada mais nefasto para os brancos do que a instituição servil, insiste o navegante.

Tanto desfibrava e amolentava os cariocas, que nem sequer eram capazes de se abaixar para apanhar um objeto de que carecessem. Muito mal o impressionaram também os costumes livres da cidade, onde os burgueses viviam licenciosamente e onde, infelizmente, acrescenta, havia eclesiásticos mal notados em tal particular, sem que, contudo, semelhante pecha lhes desabonasse a reputação.

O eterno "infra-equinocial" lançado em rosto aos colonos americanos pelos reparadores de todos os tempos, cheios de preconceitos e opiniões antedatadas... Esquecia-se mestre Froger que, havia bem pouco, relatara a lucrativa venda de africanos que a esquadra do rei cristianíssimo transportara para o Brasil, naturalmente obedecendo a ditames de ordem humanitária...

Virulentamente continuando Froger a agredir o clero do Brasil, segundo o que pretende haver visto no Rio de Janeiro, declara "que a impudicícia não é o único defeito dos frades ímpios da terra".

"Vivem numa ignorância crassa, muito poucos se encontram que saibam o latim; é de recear que nos façam ver o incêndio de uma nova Sodoma. Há em todo o Brasil legiões de Franciscanos, Carmelitas e Beneditinos, mas todos eles pouco se incomodam com a conversão dos pobres índios, que não pedem outra cousa senão serem instruídos nas luzes do Evangelho".

Reparador severo este rapazola de 19 anos, que se gaba de haver examinado com exatidão "o comércio dos países, os interesses particulares de cada colônia, as forças, a situação e as vantagens dos portos, os costumes e a religião dos povos, as propriedades das frutas, plantas, pássaros, peixes e animais (sic) que lhe pareceram extraordinários", e julga ter escoimado o seu livro "dos pormenores maçadores, que geralmente atulham as relações de viagem"! Assim está certo de que o leitor terá "prazer em tomar conhecimento de novas descrições, etc., etc."!

Em todo o vasto Brasil, avança o impetuoso generalizador, "só há oito ou dez bons Capuchinhos franceses e alguns Jesuítas que com extraordinário zelo se aplicam às santas Missões".

Para mostrar de que força eram os religiosos no Rio de Janeiro, conta Froger o seguinte: havendo um dos oficiais da esquadra altercado com um fluminense, foi obrigado a sacar da espada para se defender. Viu-se então atacado por um magote de portugueses, e assim tratou de fugir.

"Vendo a porta dos Carmelitas aberta entrou, crendo que ali encontraria seguro asilo. Mas qual! foi o contrário, pois um destes caridosos religiosos lhe descarregou na cabeça um golpe, cujos vestígios lhe restariam para sempre. E acudiram outros, ainda, que o encheram de pauladas e o entregaram aos perseguidores.

Estes, porém, dele tiveram compaixão, ficando horrorizados com o procedimento dos frades".

"O que digo destes falsos religiosos, ressalva o viajante francês, em nada deve ofender aqueles que cumprem o dever, pois as invectivas dirigidas aos libertinos não fazem senão aumentar o respeito devido aos que procuram o ensejo de mostrar o zelo e derramar sangue para maior glória de Jesus Cristo".

Balafo, instrumento dos negros; bastões; cerejas do Brasil. Pág. 46 da obra de Froger