1.8.17

VIAJANTES ESTRANGEIROS NO RIO DE JANEIRO: FRANÇOIS FROGER (1695)


TEXTO EXTRAÍDO DA OBRA O RIO DE JANEIRO DE ANTANHO: IMPRESSÕES DE VIAJANTES ESTRANGEIROS DE AFONSO DE E. TAUNAY. ILUSTRAÇÕES EXTRAÍDAS DA EDIÇÃO ORIGINAL DE RELATION DU VOYAGE DE MR. DE GENNES AU DETROIT DE MAGELLAN (RELATO DA VIAGEM DO SR. DE GENNES AO ESTREITO DE MAGALHÃES) DE FRANÇOIS FROGER

Folha de rosto da edição original da obra de Froger de 1698

Poucas épocas na História ocorrem em que franceses e ingleses tenham batalhado como no reinado de Luiz XIV, isto é fato de todos sabido. Na história da luta multissecular das duas grandes nações, há mais de um século reconciliadas e mais tarde unidas pela comunhão dos esforços tremendos e provações da Grande Guerra, uma das fases de mais ativa hostilidade, foi certamente a dos últimos anos seiscentistas, sob Guilherme III, de Orange, o inimigo acérrimo do Rei Sol.

Derrotada a frota francesa pela anglo-holandesa, no encontro da Hogue, onde o ilustre Tourville perdeu a batalha, mas não a justa fama de grande cabo de guerra, batidas as esquadras de França, rendidas numerosas praças coloniais, ansiavam os marujos de Luiz XIV por uma desforra dos adversários seculares e irredutíveis.

Entre estes, um lugar tenente de Vivonne, educado na escola dos heróis que eram Duquesne, Duguay Trouin e Jean Bart: o comandante De Gennes.

Aventuroso e valente, engenheiro naval de real mérito, autor de diversos inventos, era muito estimado do próprio Rei: "Inventara, diz o padre Labat, citado no Dictionnaire Universel du XIXme siècle, várias máquinas muito belas, muito curiosas e muito úteis, canhões e obuseiros de novo sistema, flechas destinadas a rasgar o velame dos navios, relógios sem molas e contrapeso, um pavão que andava e digeria (o que vi), uma bola achatada nos dois polos que subia por si só sobre um plano quase perpendicular e descia suavemente e sem cair, e uma infinidade de outras cousas, que o rei examinou com prazer".

Ocorreu a De Gennes em 1693, já então capitão de fragata, a ideia de fundar uma Companha de Comércio para a colonização francesa no Estreito de Magalhães. Pedindo subsídios régios teve o mais favorável deferimento. Deu-lhe Luiz XIV seis navios de alto bordo, tripulados por 784 homens, com os quais, em 1695, zarpou de La Rochelle.

Percorrendo a costa africana ocidental, aproveitou o navegante a ocasião para expugnar [conquistar] os estabelecimentos britânicos da Gâmbia (Fort James); Daí zarpando em direção ao Brasil, aportou em S. Vicente do Cabo Verde, onde desembarcou os numerosíssimos doentes de febres e escorbuto. Comprou em Santo Antão provisões em abundância. A quatro de outubro de 1695 rumava para o Rio de Janeiro, em cuja barra apareceu a 30 de Novembro.

A cinco de Janeiro seguinte partia a sua esquadra para o estreito magalhânico; sofreu nos mares do Sul tremendas tempestades. Atingindo a extremidade do continente, tiveram De Gennes e os seus comandados o critério de verificar que o estabelecimento de um presídio [fortaleza] naqueles páramos desolados seria a mais calamitosa tentativa, tanto mais quanto os recursos da frota se apresentavam escassos. Assim, pois, decidiu o conselho de guerra o regresso à França.

A 16 de maio de 1696 navegava a divisão em águas de Cabo Frio, sabendo De Gennes que as autoridades portuguesas lhe não consentiriam, provavelmente, voltar a fundear no Rio de Janeiro. Demorou-se algumas semanas naquelas paragens e afinal rumou para a Bahia, onde, a 20 de julho, foi recebido afetivamente e de onde zarpou em direção às Antilhas. A 21 de abril de 1697 entrava novamente em La Rochelle.

Dessa jornada naval existe interessante documento: o livro editado em Paris em 1698 por Michel Brunet: Rélation d'un voyage fait en 1695, 1696 et 1697 aux Côtes d'Afrique, Détroit de Magellan, Brésil, Cayenne et Iles Antilles, par une, escadre des Vaisseaux du Roy, commandée par monsieur De Gennes, fait par le Sieur Froger, Ingénieur Volontaire sur le vaisseau le "Faucon Anglais", enrichie de grand nombre de figures dessinées sur les lieux (Relação de uma viagem feita em 1695, 1696 e 1697 às costas da África, Estreito de Magalhães, Brasil, Caiena e Ilhas Antilhas pela esquadra de embarcações do rei, comandada pelo senhor De Gennes, feita pelo Sr. Froger, engenheiro voluntário na nau "Falcão Inglês", enriquecida de um grande número de figuras desenhadas no local).

Conhecemos a tiragem feita pelo livreiro Nicolau le Gras, em 1699. Comprara este os direitos autorais de Nicolau de Fer, cessionário do autor.

Eram de Fer e Guilherme de I'Isle, então, as autoridades máximas da cartografia francesa. "Esta obra, diz a Grande Encyclopedie, tem o seu valor sob o ponto de vista da História natural e da Hidrografia." Ignoramos se existe terceira edição francesa; honra-se, porém, com uma tradução inglesa, impressa em 1698, por Gillyflower.

Entree de la Rivière de Ianeyro à la Côte du Brésil (Entrada do Rio de Janeiro na costa do Brasil).  O mapa mostra claramente que na época ainda se acreditava que a Baía da Guanabara fosse a embocadura de um grande rio, daí a designação Rio de Janeiro.
Não é muito o que Froger escreve acerca do nosso país, mas não deixam de ser curiosas suas informações. Seu livro, hoje raridade bibliográfica, não é dos que se acham ao alcance de todos.

A 29 de novembro de 1695 chegava a esquadra de De Gennes à altura de Cabo Frio e a 30 à barra do Rio de Janeiro, onde pediu prático. Custaram tanto os de terra a responder que o comandante ordenou que os seus vasos ficassem bordejando, enquanto mandava um dos oficiais entender-se com as autoridades do porto. Às seis horas da tarde de primeiro de dezembro voltava o emissário contando que havia grande alvoroto na cidade.

Não se sabia, exatamente, no Rio de Janeiro, se reinava ou não guerra entre a França e Portugal; a chegada desde alguns dias do bergantim da esquadra tal pânico provocara, que tinham as famílias começado a retirar-se para o campo, carregando as melhores alfaias.

No dia seguinte souberam os franceses por um oficial português que podiam ancorar ao alcance imediato dos canhões de Santa Cruz. Havia brisa forte, porém, e os navios garraram para dentro do porto. Imediatamente sobre eles atiraram as baterias de terra. Não responderam os franceses, que conseguiram fundear pouco depois. Voltou o oficial trazendo piloto e médico. Estava o governador muito hesitante se devia, ou não, deixar que a esquadra viesse ao fundeadouro. Alegava a existência de numerosos enfermos a bordo e receava o contágio.

Era ele Sebastião de Castro Caldas, personagem mais tarde muito conhecido pelo papel que lhe coube na chamada "Guerra dos Mascates".

Afinal, avisou o ajudante de ordens que iria a Santa Cruz [a fortaleza] notificar a permissão de passagem dos vasos franceses.

Como, porém, houvessem estes aparelhado antes de sua chegada à fortaleza, ainda receberam mais de dez tiros, dos quais um por um triz não alcança o paiol de pólvora da capitania.

Assim mesmo, veio ordem para que dous dos maiores navios ficassem fora da barra; havia expressas instruções reais para que não entrassem no porto mais de três barcos de guerra estrangeiros. Assim, partiram para a Ilha Grande.

Apenas chegado, desembarcou o sr. De Gennes e foi queixar-se ao governador dos balázios recebidos. Que praxe era esta de se tratarem por tal forma as naus de uma potência amiga?

Respondeu-lhe Castro Caldas dizendo-lhe que desejara consentir na entrada franca da frota. Havia, porém, muita gente contrária a tal licença e grande fermentação popular, perigosa mesmo, para a manutenção da ordem. Em todo caso, permitia que os doentes desembarcassem na Praia Grande [Niterói] e prometia-lhes a assistência, que lhe fosse possível.

Deu-se, então, novo incidente, característico da vaidade das pragmáticas e regimentos. Perguntou o comandante francês se acaso salvasse de terra lhe responderiam tiro por tiro. Respondeu-lhe o governador que absolutamente não; daria quando muito alguns disparos, por lhe caber a homenagem. À vista de semelhante resposta, resolveu o francês não salvar. A quatro desembarcaram os escorbúticos, e a esquadra demorou-se nas águas guanabarinas até 27 de dezembro, fazendo grandes compras de mantimentos: carnes salgadas, farinha de mandioca, açúcar, arroz, milho, tapioca, etc.

 Traziam da África os navios franceses grande número de negros escravos, então negociados, salvo os mais robustos, destinados a substituir os marinheiros brancos dizimados na costa da Gâmbia, pela febre amarela. Só a capitania, o "Faucon anglais", perdera mais de cinquenta homens!

Em todos os fornecimentos, pretende Froger, foram os franceses muito prejudicados pela tratantice do governador, que proibira aos particulares comerciar com a esquadra, querendo ser o único comprador e vendedor. "Vimo-nos obrigados a lhe ceder as nossas mercadorias muito mais barato do que pelos preços da Europa".

Dá-lhe isto o ensejo de lembrar a má fé da nação lusa, "em que, afirma, predominavam os indivíduos de raça judaica na proporção de mais de três quartos".

Do Rio de Janeiro, "grande cidade bem construída e de excelente aspecto, estendendo-se pela praia desde o magnífico Mosteiro de São Bento até ao não menos monumental Colégio dos Jesuítas", teve o viajante boa impressão, mas não dos fluminenses.

"Bem vestidos, gravibundos como a gente de sua nação, se mostram, ricos, amantes do tráfico, possuem numerosos escravos negros, fora várias famílias de índios que empregam nos engenhos de açúcar, mas a quem não querem escravizar, por serem filhos da terra". (em francês, como vemos na página 71 ao lado: "Ses habitants sont propres, & d'une gravité ordinaire à leus Nation; ils sont riches & aiment le trafic: ils ont grand nombre d'Esclaves noirs, outre plusieurs familles entieres d'Indiens qu'ils entretiennent dans leurs sucreries, & à qui ils ne veulent pas ôter la literté, comme étans naturels du Païs.)

Nada mais nefasto para os brancos do que a instituição servil, insiste o navegante.

Tanto desfibrava e amolentava os cariocas, que nem sequer eram capazes de se abaixar para apanhar um objeto de que carecessem. Muito mal o impressionaram também os costumes livres da cidade, onde os burgueses viviam licenciosamente e onde, infelizmente, acrescenta, havia eclesiásticos mal notados em tal particular, sem que, contudo, semelhante pecha lhes desabonasse a reputação.

O eterno "infra-equinocial" lançado em rosto aos colonos americanos pelos reparadores de todos os tempos, cheios de preconceitos e opiniões antedatadas... Esquecia-se mestre Froger que, havia bem pouco, relatara a lucrativa venda de africanos que a esquadra do rei cristianíssimo transportara para o Brasil, naturalmente obedecendo a ditames de ordem humanitária...

Virulentamente continuando Froger a agredir o clero do Brasil, segundo o que pretende haver visto no Rio de Janeiro, declara "que a impudicícia não é o único defeito dos frades ímpios da terra".

"Vivem numa ignorância crassa, muito poucos se encontram que saibam o latim; é de recear que nos façam ver o incêndio de uma nova Sodoma. Há em todo o Brasil legiões de Franciscanos, Carmelitas e Beneditinos, mas todos eles pouco se incomodam com a conversão dos pobres índios, que não pedem outra cousa senão serem instruídos nas luzes do Evangelho".

Reparador severo este rapazola de 19 anos, que se gaba de haver examinado com exatidão "o comércio dos países, os interesses particulares de cada colônia, as forças, a situação e as vantagens dos portos, os costumes e a religião dos povos, as propriedades das frutas, plantas, pássaros, peixes e animais (sic) que lhe pareceram extraordinários", e julga ter escoimado o seu livro "dos pormenores maçadores, que geralmente atulham as relações de viagem"! Assim está certo de que o leitor terá "prazer em tomar conhecimento de novas descrições, etc., etc."!

Em todo o vasto Brasil, avança o impetuoso generalizador, "só há oito ou dez bons Capuchinhos franceses e alguns Jesuítas que com extraordinário zelo se aplicam às santas Missões".

Para mostrar de que força eram os religiosos no Rio de Janeiro, conta Froger o seguinte: havendo um dos oficiais da esquadra altercado com um fluminense, foi obrigado a sacar da espada para se defender. Viu-se então atacado por um magote de portugueses, e assim tratou de fugir.

"Vendo a porta dos Carmelitas aberta entrou, crendo que ali encontraria seguro asilo. Mas qual! foi o contrário, pois um destes caridosos religiosos lhe descarregou na cabeça um golpe, cujos vestígios lhe restariam para sempre. E acudiram outros, ainda, que o encheram de pauladas e o entregaram aos perseguidores.

Estes, porém, dele tiveram compaixão, ficando horrorizados com o procedimento dos frades".

"O que digo destes falsos religiosos, ressalva o viajante francês, em nada deve ofender aqueles que cumprem o dever, pois as invectivas dirigidas aos libertinos não fazem senão aumentar o respeito devido aos que procuram o ensejo de mostrar o zelo e derramar sangue para maior glória de Jesus Cristo".

Balafo, instrumento dos negros; bastões; cerejas do Brasil. Pág. 46 da obra de Froger

15.7.17

NILTON BRAVO (1937-2005), O MICHELANGELO DOS BOTEQUINS


Painéis de Nilton Bravo tombados pela Prefeitura no Bar Sulista, na Praça Coronel Assunção, 357 (Gamboa)

Nilton Bravo (1937-2005), pintor de linha acadêmica, sobretudo de naturezas mortas, conhecido como o “Michelangelo dos Botequins” (ou, segundo Carlos Heitor Cony, “o Rubem Braga da paleta, o Vinicius de Moraes do pincel”, como veremos na crônica adiante), começou a pintar ainda criança e logo se associou ao pai Lino Pinto Bravo (1899-1966), que se assinava Bravo Filho, “o pintor de botequins”, os dois passando a pintar a quatro mãos e assinando Nilton Bravo & pai. Sem nenhuma formação acadêmica, aprendeu com o pai  as técnicas de pintura.

Pintou mais de 2 mil painéis em botequins e outros estabelecimentos Rio de Janeiro afora, principalmente nos subúrbios, Centro e Zona Portuária. “Quando Pelé fez o milésimo gol eu já tinha pintado mais de 1300 painéis” (Nilton Bravo em O Globo, Jornal do Bairro: Meier, 31/5/1989) Em 1986, o Prefeito Saturnino Braga decidiu tombar seus painéis a óleo, mas pouco se fez de concreto, e na prática apenas as pinturas do Bar Sulista, na Rua Coronel Assunção, 357 (Gamboa - fotos acima), estão hoje tombadas. 

Com a modernização dos botequins e colocação de revestimentos de parede modernos (azulejos grandes), boa parte da obra da dinastia Bravo – iniciada pelo avô Manoel Pinto Bravo, que decorava tetos e paredes de residências e igrejas  se perdeu, e o que resta está em mau estado, com exceção dos dois painéis tombados (fotos acima), daqueles dos bares Brasília (Cachambi) e Tempero do Nordeste (Bairro de Fátima, embora com algumas partes descascadas - ver foto abaixo) e de alguns estabelecimentos mais “gentrificados”, com maior consciência do valor dessas obras, que as conservam até como chamariz, a exemplo do Jobi no Leblon, Adega Flor de Coimbra na Lapa, o tradicional Adegão Português em São Cristóvão e o Pirajá em São Paulo. 

Na década de 1980 Nilton Bravo deixou de pintar painéis para se dedicar às telas, expostas em galerias de arte, gozando de relativo sucesso e certa visibilidade na imprensa (foi em edições de O Globo da época que extraí as informações desta “biografia”). Ocupou a cadeira 40 da Academia Brasileira de Belas Artes. Seu último painel de botequim, no Belmonte de Copacabana, pintou-o no ano de sua morte, mas infelizmente em setembro de 2015 constatei que havia sido removido. Atualmente o maior pesquisador da obra remanescente de Bravo é Evandro Von Sydow Domingues, que se dedica a percorrer bares Rio afora na tentativa de localizá-los. O resultado de suas investigações encontra-se em seu blog A Vida Numa Goa e seu inventário mais recente das obras de Bravo (6/6/15) pode ser consultado aqui.


Adega Flor de Coimbra (Lapa)

Trecho da crônica "O Miguel Ângelo dos Botequins" de Carlos Heitor Cony publicada na Folha de São Paulo de 4/9/1998 (para ler a crônica inteira clique aqui):

"Não faz muito, grande parte dos bares, botequins e padarias do Rio eram decorados por um pintor chamado Nilton Bravo. Em termos de comunicação, era na época o artista mais consumido do Brasil.

Suas paisagens podiam ser admiradas por milhares de pessoas, todos os dias. Segundo os donos dos botequins, os quadros de Nilton Bravo ajudavam o varejo: olhando a paisagem bucólica e plácida, o freguês sentia vontade de comer outro sanduíche e beber mais um chope.

Herdeiro de nobre tradição pictórica, ele repetia Miguel Ângelo passando a vida pendurado em andaimes, cobrindo paredes com cores e formas. O botequim era a sua Capela Sistina. Em vez do papa, quem lhe dava ordens era o dono do bar: "Bota um barquinho ali naquele canto". Ele botava.

Trabalhando a metro quadrado, seus quadros pregavam a doçura das tardes, a quietude das águas. Por sua ternura, era o Rubem Braga da paleta, o Vinícius de Moraes do pincel.

Não havia carioca que não tivesse visto um quadro de Nilton Bravo. Suas paisagens eram, em essência, as mesmas: um rio cortando duas margens floridas, uma casinha rústica com a fumaça saindo pela chaminé, um céu azul bordado de nuvens diáfanas."


Belmonte de Copacabana, o último painel de Bravo, especialmente encomendado, infelizmente já removido

"Nilton Bravo", crônica de Nelson Motta no Caderno B do Jornal do Brasil de 20-7-67:

Seu estilo é inconfundível e sua obra espalha-se pela Cidade inteira.
Entre os cariocas, seus painéis são mais conhecidos do que qualquer quadro de Picasso ou Van Gogh.

Quase todo mundo já viu um painel seu, mas, provavelmente, muito poucos prestaram atenção à pintura para não deixar esfriar o cafezinho.

Sim, é ele mesmo — Nilton Bravo — o pintor que decorou a grande maioria dos bares e botequins do Rio com seus painéis, onde o motivo é sempre ligado à atividade ou localização do bar.

Autor de mais de 2000 trabalhos, a princípio em sociedade com seu pai — também Nilton Bravo [na verdade o pai de Nilton Bravo chama-se Lino Pinto Bravo Filho e o avô, nascido na Itália, Manoel Pinto Bravo] —, é um autodidata, que aprendeu na prática a resolver os problemas de decoração das paredes dos bares do Rio.

Praia de Copacabana, Corcovado, Pão de Açúcar e Aterro da Glória são alguns dos seus temas preferidos; no entanto, apenas sugere ao dono do bar a paisagem que deve ser pintada.

São conhecidíssimos seus painéis numa sinuca do Posto Seis e no bar em frente ao Jóquei, onde naturalmente o assunto é corrida de cavalos.

Embora em estilo acadêmico, os painéis de Nilton Bravo despertam grande interesse entre os artistas pop do Rio como Rubens Gerchman e Carlos Vergara. Antônio Dias sabe inclusive “onde estão os melhores Bravo da praça, de determinada fase”.

Rubens Gerchman, recentemente premiado no Salão de Arte Moderna com dois anos de estudos em Paris, dá seu depoimento:

“O grande mecenas de hoje é o pequeno comerciante, dono do bar da esquina, quase sempre português.

Para um dono de bar é uma vergonha que suas paredes não possuam pelo menos uma pintura decorando o ambiente.

O mais conhecido de todos os pintores de bar é Nilton Bravo, que a princípio assinava Bravo & Filho, depois Bravo & Pai e atualmente apenas Nilton Bravo.

Assinatura

Outro dia — diz ainda Gerchman — conversando com meu amigo, o também pintor Paulo Guilherme Sami, achamos interessante criar uma firma de pintura de bar. O nome escolhido foi Pinbar e o logotipo que desenhamos foi uma palheta de pintor com seus respectivos pincéis e o telefone, como Nilton Bravo.

Nossa primeira encomenda — contou Gerchman — foi em uma padaria de Nova Iguaçu e, conversando com o proprietário, passamos a entender a psicologia prática do dono de bar, pois nos foi encomendada, para o balcão de bebidas, uma paisagem de mar (que motiva a sede) e do lado da padaria uma vista da Cidade (que dá ideia de atividade e desperta a fome).”

O traço fino, a integração de paisagens e cenas, os detalhes (Nilton ama os detalhes) dos ramos de árvores sempre tocando de leve as águas de alguma lagoa onde pode estar-se banhando uma jovem índia com o Pão de Açúcar ao fundo ou o Monumento aos Mortos da II Guerra. Estes são alguns elementos que permitirão a você identificar imediatamente, e sem erro, qualquer painel para, esquecendo um pouco o cafezinho, dizer com absoluta certeza: “Trata-se de um Bravo autêntico.”




Painel de Nilton Bravo do Bar Brasília, também conhecido como Bar da Margarida (Cachambi) 

NILTON BRAVO NA LITERATURA:

A única menção à obra de Bravo na literatura que conheço é na pág. 211 do romance A última adolescência do autor contemporâneo Helio Brasil, que se notabiliza por fixar a memória de seu bairro natal São Cristóvão, como você pode conferir no verbete que lhe dedica a Wikipedia. Só que ele grafou o nome do pintor erroneamente. Aqui está o trecho:

A garotada contemplava de longe, apreciando os painéis greco-romanos de Newton [Nilton] Bravo, um contraste imprevisto entre o lirismo de paisagens floridas e o fumo que empestava o ambiente de mistura com o odor de café – sempre fresco – e a carne assada feitos pelas duas mulheres que se ocupavam da cozinha. Aquele era um lugar para gente grande, tanto mais que nos fundos, separadas por painéis de vidro e madeira, portas vai-e-vem, havia duas sólidas mesas Brunswick, eternamente cercadas pelos bambas do taco. Ali esbarravam-se, sem ousar beligerância, detetives e batedores de carteira, bookmakers e seus ansiosos fregueses, acompanhando os páreos gritados pelo rádio na voz de Teófilo de Vasconcelos, ou torcedores fanáticos acompanhando as proezas de Ademir, Zizinho, Danilo e Pedro Amorim nas dramáticas recriações de Ary Barroso. Em um ou outro canto, indiferentes a tudo, os adeptos do carteado, preparando-se para as rodadas noturnas de pôquer.


Painel de Nilton Bravo no Jobi, Leblon (detalhe) 

Painel de Bravo no Bar Tempero do Nordeste, Bairro de Fátima: em cima, o painel inteiro, bem comprido, com algumas partes descascadas; embaixo, dois detalhes, um da esquerda e outro do centro. Esse painel bem que merecia ser tombado e restaurado pela Prefeitura.

Alguns dos painéis de Bravo estão em mau estado de conservação, descoloridos, como este no Café e Bar Costa do Minho, em frente ao antigo Zoológico em Vila Isabel


Duas pinturas de Nilton Bravo estão muito bem conservadas no Adegão Português, no Campo de São Cristóvão, uma delas mostrada nesta foto que obtive no site desse restaurante (já que me falta bala na agulha para poder frequentá-lo). Segundo um dos proprietários (JB de 13/12/83), na reforma do restaurante de 1980 essas pinturas seriam cobertas com "tinta ou um revestimento qualquer, porque já tinham saído da moda e estavam até rachadas. Mas, quando souberam da nossa intenção, algumas velhinhas que costumavam almoçar aqui em grupo fizeram um abaixo-assinado e entregaram ao nosso arquiteto, com o argumento de que estaríamos contribuindo para a extinção da cultura popular".  As pinturas foram então restauradas e mantidas, podendo ser contempladas até hoje. 

1.7.17

VIAJANTES ESTRANGEIROS NO RIO DE JANEIRO: MARIA GRAHAM (1821-23)

A escritora, pintora e desenhista Lady Maria Dundas Graham Callcott (mais conhecida como Maria Graham) esteve no Brasil três vezes. Na primeira vez, acompanhou o marido em viagem até o Chile a bordo da fragata HMS Doris. Permaneceu no Rio de 15 de dezembro de 1821 a 10 de março de 1822, quando a fragata prosseguiu viagem até o destino final. Pouco depois de o navio contornar o Cabo Horn o marido de Maria morreu de febre. Em janeiro de 1823, Maria deixou o Chile para sua segunda visita ao Brasil, acompanhada de Lorde Cochrane, chegando no Rio de Janeiro em 13 de março. Em 21 de outubro de 1823 embarcou de volta à Inglaterra. Em 1824 viria pela terceira vez ao Rio, para ser preceptora da princesa Maria da Glória, como ficara combinado na estadia anterior. Embora desenvolvesse forte amizade com a Imperatriz Leopoldina, intrigas palacianas fizeram com que tivesse de deixar o Palácio, mas permaneceu na cidade, só voltando à terra natal em 1825. Os trechos a seguir são do seu DIÁRIO DE UMA VIAGEM AO BRASIL e de uma estada nesse país durante parte dos anos de 1821, 1822 e 1823, na tradução de Américo Jacobina Lacombe disponível na Brasiliana Eletrônica. Existe uma outra tradução do diário editada pela Itatiaia à venda na Estante Virtual. As ilustrações foram extraídas da edição original inglesa de 1824 que pode ser encontrada na Internet.



PRIMEIRA ESTADIA: dezembro de 1821 a março de 1822

Chegada no Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, sábado, 15 de dezembro de 1821 — Nada do que vi até agora é comparável em beleza à baía [da Guanabara]. Nápoles, o Firth of Forth, o porto de Bombaim e Trincomalee, cada um dos quais julgava perfeito em seu gênero de beleza, todos lhe devem render preito porque esta baía excede cada uma das outras em seus vários aspectos. Altas montanhas, rochedos como colunas superpostas, florestas luxuriantes, ilhas de flores brilhantes, margens de verdura, tudo misturado com construções brancas, cada pequena eminência coroada com sua igreja ou fortaleza, navios ancorados, ou em movimento, e inúmeros barcos movimentando-se em um tão delicioso clima, tudo isso se reúne para tornar o Rio de Janeiro a cena mais encantadora que a imaginação pode conceber.

Catete como subúrbio
Segunda-feira, 17 [de dezembro] — Com o auxílio de alguns amigos de terra, obtivemos uma casa confortável num dos subúrbios do Rio, chamado Catete, do nome de um rio que corre por ele até o mar. Para esta casa trouxe meu pobre guarda-marinha doente, Langford. Confio em que o ar livre, o exercício moderado e uma dieta de leite curá-lo-ão. Fomos visitados por diversas pessoas, que todas parecem hospitaleiras e amáveis, especialmente o cônsul-geral em exercício, coronel Cunningham, e senhora.

Alimentação
Comecei a tomar conta da casa em terra. Encontramos verduras e aves muito boas, mas não baratas; as frutas são muito boas e baratas, a carne verde é barata, mas ruim; há um açougueiro monopolista e ninguém pode matar um animal, sequer para seu próprio uso, sem pagar-lhe uma licença; consequentemente, não havendo concorrência, ele fornece o mercado à sua vontade. A carne é tão má que três dias em quatro mal pode ser empregada sequer em sopa de carne. A que é fornecida no navio é tão má quanto esta. O carneiro é raro e mau. A carne de porco é muito boa e bonita. Os porcos se alimentam principalmente de mandioca e milho perto da cidade. Os mais distantes têm a vantagem da cana-de-açúcar. O peixe não é tão abundante conto o deveria ser, em vista da quantidade que existe em toda a costa, mas é muito bom. As ostras, os camarões e os caranguejos são tão bons como em toda a parte. O pão de trigo usado no Rio é feito principalmente de farinha americana e, de um modo geral, bem bom. Nem a capitania do Rio, nem as do Norte produzem trigo, mas nas terras altas de São Paulo e Minas Gerais e nas províncias do Sul, é cultivado em boa escala e com grande sucesso. O grande artigo de alimentação aqui é a farinha de mandioca. Usa-se sob a forma de um bolo largo e fino como um requinte. Mas o modo habitual de comê-la é seca. Na mesa dos ricos é usada em todos os pratos que se comem, tal como comemos pão. Os pobres empregam-na de todas as formas: sopa, papa, pão. Nenhuma refeição está completa sem ela. Depois da mandioca, o feijão é a comida predileta, preparado de todas as maneiras possíveis, porém mais frequentemente cozido com um pedacinho de carne de porco, alho, sal e pimenta. Como gulodice, desde os nobres até os escravos, doces de todas as espécies, desde as mais delicadas conservas e confeitos até as mais grosseiras preparações de melaços, são devoradas em grosso.

Laranjeiras, vendo-se no centro-direita a Bica da Rainha, existente até hoje

Passeio em Laranjeiras
Passeei a cavalo, ao lado de Langford, por um dos pequenos vales ao pé do Corcovado. É chamado Laranjeiros [Laranjeiras], por causa das numerosas árvores de laranjas que crescem dos dois lados do pequeno rio que o embeleza e o fertiliza. Logo à entrada do vale, uma pequena planície verde espraia-se para ambos os lados, através da qual corre o riacho sobre seu leito de pedras, oferecendo um lugar tentador para grupos de lavadeiras de todas as tonalidades, posto que o maior número seja de negras. E elas não enriquecem pouco o efeito pitoresco da cena. Geralmente usam um lenço vermelho ou branco em volta da cabeça, uma manta dobrada e presa sobre um ombro e passando sob o braço oposto, com uma grande saia. É a vestimenta favorita. Algumas enrolam uma manta comprida em volta delas, como os indianos. Outras usam uma feia vestimenta europeia, com um babadouro bem deselegante amarrado adiante. Em torno da planície das lavadeiras, sebes de acácias e mimosas cercam os jardins, cheios de bananeiras, laranjeiras e outras frutas, que cercam cada vila. Além destas, as plantações de café estendem-se até bem alto na montanha, cujos cumes pitorescos limitam o cenário. As casas de campo não são aqui nem grandes nem luxuosas, mas são decoradas com varandas e têm geralmente uma bela escadaria até a casa de residência do dono, junto à qual estão, ou os paióis, ou as casas dos escravos. Todas têm portão, qualquer que seja a casa, e este portão geralmente conduz ao menos a uma aleia onde se cultivam todas as espécies de flores. O Brasil é especialmente rico em esplêndidas trepadeiras e arbustos. Estes são entremeados com flores de laranja e limão, o jasmim e a rosa do oriente, de modo que o conjunto é uma massa de beleza e fragrância. É difícil saber quem mais apreciou esta manhã, se eu, ou o meu doente. Com poucas delas creio que não há doença que não desapareça.

Expansão da cidade até Botafogo com a vinda da Família Real
Os efeitos da presença da Corte em breve se fizeram sentir na cidade do Rio de Janeiro. Antes de 1808 confinava-se ela em terreno pouco mais vasto do ocupado quando foi atacada por Duguay Trouen [Trouin] em 1712 [aliás 1711]; as belas enseadas acima e abaixo dela, formadas pela baía, estavam desabitadas, exceto por alguns pescadores, enquanto os pântanos e lamaçais que a cercavam, tornavam-na extremamente suja. Um terreno perto da igreja de São Francisco de Paulo [Paula] havia sido reservado para fazer uma praça; mas apenas umas escassas 12 casas se erguiam em torno e um tanque lamacento ocupava o centro; dentro dele os negros costumavam atirar todas as imundícies da vizinhança e ainda não estava aterrado. Em um dos lados da praça começara-se a construção de um teatro, não inferior aos da Europa em tamanho e em acomodações, e colocado sob o patrocínio de São João [no local do atual Teatro João Caetano]. Várias casas magníficas ergueram-se então nas vizinhanças; a praça ficou pronta; uma outra, muito maior ficava adiante dela, num dos limites da cidade. No outro lado, entre o sopé da montanha do Corcovado, com seus contrafortes e o mar, as boas posições foram ocupadas por deliciosas casas de campo. A linda enseada de Boto Fogo (Botafogo], onde antes só havia pescadores e ciganos, tornou-se em breve um subúrbio arejado e populoso.

Corcovado

Amizade com os negros
Dezembro, 27 — Desde a excursão ao Jardim Botânico, alguns de nossos doentes começaram a melhorar; outros, que estavam bem, adoeceram. Eu não fiz senão passear a cavalo e conversar com eles, contemplar as belas vistas da vizinhança e conhecer um pouco mais os habitantes, dos quais, os mais divertidos, tanto quanto pude ver até agora, são certamente os negros que transportam as frutas e verduras para vender. Os guardas-marinha fizeram amizade com alguns. Um deles tornou-se até amigo da casa, e depois de vender as frutas de seu senhor, ganha uma pequena gratificação para ele próprio, pelos seus contos, suas danças e suas cantigas. Sua tribo, ao que parece, estava em guerra com um rei vizinho. Ele partiu para a luta ainda menino, foi feito prisioneiro e vendido. Esta é provavelmente a história de muitos, mas o nosso amigo a conta com movimento e ênfase, mostra as feridas, dança sua dança de guerra, grita sua canção bárbara, de modo que, de escravo selvagem, transforma-se em objeto de tocante interesse.

O Rio e suas praças
A cidade do Rio é uma cidade mais europeia do que Bahia ou Pernambuco. As casas são de três ou quatro pavimentos, com tetos salientes, toleravelmente belas. As ruas são estreitas, pouco mais largas do que o Corso em Roma, com o qual uma ou duas têm um ar de semelhança, especialmente nos dias de festa, quando as janelas e balcões são decorados com colchas de damasco vermelho, amarelo ou verde. Há duas praças muito belas, além da do Paço. Uma, outrora Roça [Rossio], hoje da Constituição [atual Praça Tiradentes], à qual dão uma aparência muito nobre o teatro, alguns belos quartéis e belas casas, atrás dos quais os morros e montanhas dominam dos dois lados. A outra, o Campo de Sant'Ana, é extremamente extensa mas está inacabada. Duas das ruas principais cruzam-na desde o lado do mar até a extremidade da cidade nova, com perto de uma légua; novas ruas, largas, estão-se estendendo em todas as direções. Mas estava muito cansada por sair no calor do dia para fazer mais que uma visita rápida a essas cousas. Não tive ânimo nem mesmo de ver o novo chafariz [de Paulo Fernandes], abastecido por um novo aqueduto.

Escravos
Há na cidade um ar de pressa e atividade bem agradável aos nossos olhos europeus. No entanto todos os portugueses fazem a sesta após o jantar. Os negros, tanto livres quanto escravos, parecem alegres e felizes no trabalho. Há tanta procura deles que se encontram em pleno emprego e têm, naturalmente, boa paga. Lembram aos outros aqui o menos possível a triste condição servil, a não ser quando se passa pela rua do Valongo. Então todo o tráfico de escravos surge com todos os seus horrores perante nossos olhos. De ambos os lados estão armazéns de escravos novos, chamados aqui peças, e aqui as desgraçadas criaturas ficam sujeitas a todas as misérias da vida de um negro novo: escassa dieta, exame brutal e açoite.

Mau atendimento nas lojas
Divirto-me com a visível apatia dos caixeiros brasileiros. Se estão empenhados, como atualmente não é raro, em falar de política, ou a ler jornais, ou simplesmente a gozar fresco nos fundos da loja, preferirão dizer, na maior parte das vezes, que não têm a mercadoria pedida a se levantar para procurá-la. E se o freguês insistir e apontá-la na loja, é friamente convidado a apanhá-la ele próprio e deixar o dinheiro. Isto aconteceu várias vezes enquanto procurávamos algumas ferramentas em nosso percurso ao longo da rua Direita, onde em cada duas casas há uma loja de ferragens com fornecimentos de Sheffield e Birmingham.

Extrema beleza do Rio
24 [de janeiro de 1822] — Partimos pela madrugada para a Bahia. Foi uma das belas manhãs deste belo clima, e a notável serra que fica por trás do Pão de Açúcar via-se melhor e com mais realce à luz matutina. A extrema beleza desta terra é tal que é impossível deixar de falar e pensar nela para sempre; não há curva que não apresente algum panorama tão belo quanto novo; e se um país montanhoso e pitoresco tem, realmente, mais que os outros, o poder de atrair seus habitantes, os fluminenses deveriam ser tão grandes patriotas quanto quaisquer outros no mundo.

Calor
Sexta-feira, 1° de março - O tempo está agora extremamente quente, o termômetro chega raras vezes abaixo de 88° [31oC], e tivemos a bordo 92° Fahrenheit [33,3oC] [ver postagem sobre o calor carioca neste blog clicando aqui].

Vista do Outeiro da Glória

Superioridade dos negros e mulatos
O Senhor P. é uma das poucas pessoas que encontrei a conversar no meio dos escravos, e que parece ter feito deles objeto de atenção racional e humana. Contou-me que os negros crioulos e mulatos são muito superiores em diligência aos portugueses e brasileiros, os quais, por causas não difíceis de serem imaginadas, são, pela maior parte, indolentes e ignorantes. Os negros e mulatos têm fortes motivos para esforçar-se em todos os sentidos e serem, por consequência, bem sucedidos naquilo que empreendem. São os melhores artífices e artistas. A orquestra da ópera é composta, no mínimo, de um terço de mulatos. Toda pintura decorativa, obras de talha e embutidos são feitos por eles; enfim, excelem em todas as artes de engenho mecânico.

Teatro de Ópera (Real Teatro de São João, no local do atual Teatro João Caetano)
Tendo instalado todo o mundo confortavelmente, fui à terra para a ópera, visto como é noite de benefício de um artista favorito, Rosquellas, cujo nome é conhecido em ambos os lados do Atlântico. O teatro é muito bonito, em tamanho e proporções, e alguns de nossos oficiais julgam-no tão grande quanto o de Haymarket, mas é diferente deste. Foi inaugurado a 12 de outubro de 1813, dia dos anos de Dom Pedro. Os camarotes são confortáveis, e dizem-me que a parte não vista do teatro é cômoda para os atores, vestiários, etc.; mas a maquinaria e decorações são deficientes O divertimento da noite consistiu numa comédia portuguesa muito estúpida, alternada com os atos e cenas de uma ópera de Rossini pelo Rosquellas depois da qual ele desperdiçou uma boa dose de boa execução com música muito má.

SEGUNDA ESTADIA: março a outubro de 1823

Mercado de escravos no Valongo
1° de maio — Vi hoje o Val Longo [Valongo]. É o mercado de escravos do Rio. Quase todas as casas desta longuíssima rua são um depósito de escravos. Passando pelas suas portas à noite, vi na maior parte delas bancos colocados rente às paredes, nos quais filas de jovens criaturas estavam sentadas, com as cabeças raspadas, os corpos macilentos, tendo na pele sinais de sarna recente. Em alguns lugares as pobres criaturas jazem sobre tapetes, evidentemente muito fracos para sentarem-se. Em uma casa as portas estavam fechadas até meia altura e um grupo de rapazes e moças, que não pareciam ter mais de 15 anos, e alguns muito menos, debruçavam-se sobre a meia porta e olhavam a rua com faces curiosas. Eram evidentemente negros bem novos. Ao aproximar-me deles, parece que alguma coisa a meu respeito lhes atraiu a atenção; tocavam-se uns nos outros para certificarem-se de que todos me estavam vendo e depois conversaram no dialeto africano próprio com muita vivacidade. Dirigi-me a eles e olhei-os de perto, e ainda que mais disposta a chorar. Fiz um esforço para lhes sorrir com alegria e beijei minha mão para eles; com tudo isso pareceram eles encantados; pularam e dançaram, como que retribuindo as minhas cortesias. Pobres criaturas!

Palácio de São Cristóvão. O portão do primeiro plano atualmente está na entrada do Jardim Zoológico

Palácio Imperial de São Cristóvão
Fui hoje a São Cristóvão através de uma região muito bela. O palácio, que pertenceu outrora a um convento [na verdade, foi residência dos jesuítas] é situado em terreno elevado, e construído um tanto em estilo mourisco, pintado de amarelo com molduras brancas. Tem um magnífico panorama, uma portada de pedra de Portland e o pátio plantado com salgueiros chorões, de modo a formar um conjunto de grande beleza no fundo do vale, cercado de montanhas altas e pitorescas, a maior das quais é o Beco do Perroquito [Pico do Papagaio] A vista do palácio abrange uma parte da baía, e domina uma agradável planície, flanqueada por férteis colinas, uma das quais é coroada por belos quartéis que foram outrora um estabelecimento de jesuítas. Contornando o palácio, e indo mais para o fundo, alcancei uma plantação, que me pareceu em boa ordem, e a vila dos escravos, com sua igrejinha, que me pareceu mais confortável do que poderia crer que fosse possível. A Família Imperial vive agora toda aqui e só vai à cidade para negócios oficiais ou motivos de Estado.

Mudança para Botafogo
26 de junho - Como meu amigo Doutor Dickson, que me tratou durante todo este tempo com uma amabilidade constante, me aconselhou a mudar de ares, ele e o Senhor May arranjaram-me uma casinha na praia de Botafogo, com sobrado, o que é considerado vantagem aqui, visto como o andar térreo é frequentemente um pouco úmido. Hoje o capitão Willis, do "Brazen", trouxe-me em seu barco para minha nova moradia. [...] A baía de Botafogo é certamente um dos panoramas mais belos do mundo, mas até os últimos anos suas margens eram pouco habitadas pelas classes superiores da sociedade. No ponto mais afastado há uma garganta entre a montanha do Corcovado e as montanhas que poderíamos chamar do grupo do Pão de Açúcar, garganta que conduz à lagoa de Rodrigo de Freitas, através da qual um riacho de bela água fresca corre para o mar. [Rio Berquó]

Praia Vermelha: amabilidade dos brasileiros
Comprei um cavalinho para fazer exercício, e às vezes acompanhar os rapazes nos passeios noturnos. Na última noite fui com dois deles à Praia Vermelha, e, ao encontrar o oficial da guarda no portão do forte, pedimos licença para entrar, o que, sendo concedido, entramos e passeamos por ali admirando o panorama. Era a primeira vez que eu via a pequena enseada Vermelha do lado de terra. O forte é construído exatamente sobre o istmo que une o Pão de Açúcar à terra firme. Ficamos ali sem pensar no tempo até que o sol se pôs com esplendor; voltamos então ao portão e encontramo-lo fechado, sendo que as chaves haviam sido levadas ao comandante. De modo que tive de me dirigir ao oficial de guarda que, compreendendo o que se passara, mandou que a guarda ficasse de armas na mão e foi ele próprio buscar as chaves, conduzindo-nos com a maior gentileza para fora do forte. Onde quer que estejam brasileiros, dos mais importantes aos mais ínfimos, devo dizer que sempre encontrei a maior amabilidade; desde o fidalgo, que me procura em trajes de corte, até o camponês, ou o soldado comum, todos têm-me dado oportunidade de admirar-lhes a cortesia e de lhes ser grata.

Santa Cruz
Sábado 23 [de agosto] — A manhã estava excessivamente fria, mas clara, e a vista das extensas planícies de Santa Cruz, com os rebanhos de gado, é magnífica. Os pastos estendem-se por muitas léguas de cada lado do pequeno morro em que estão colocados o Palácio e a povoação; são aqui e ali interrompidos por tufos de floresta natural; por um lado o horizonte estende-se até o mar; por todos os outros lados a vista é limitada por montanhas ou morros cobertos de florestas. O próprio Palácio ocupa o lugar do velho Colégio dos Jesuítas [atual Batalhão Vilagran Cabrita]. Três alas são modernas; a quarta contém a bela capela dos reverendíssimos padres e uns poucos aposentos aceitáveis. A parte nova foi feita pelo rei Dom João VI, mas os trabalhos se interromperam com sua partida. Os apartamentos são belos e mobiliados com conforto. Neste clima as tapeçarias de parede, quer de papel, quer de seda, estão sujeitas a rápido estrago por causa da umidade e dos insetos.

Ida a Praia Grande (Niterói) para ver um grupo de índios botocudos
Fui com Mr. Hoste e Mr. Hately, do navio de Sua Majestade "Briton", à Praia Grande, para ver um grupo de índios botocudos que lá estão agora em visita. Como se deseja civilizar esta gente por todos os modos possíveis, quando eles manifestam o desejo de visitar a vizinhança da cidade, são sempre encorajados e gentilmente recebidos, amplamente alimentados, e recebem roupas, enfeites e ornamentos como gostam. Vimos cerca de seis homens e dez mulheres com algumas crianças. As fisionomias são antes quadradas, com os ossos das maçãs muito elevados e as testas baixas e contraídas. Algumas das moças são realmente belas, de cor de cobre claro, que brilha toda quando coram; dois dos rapazes eram decididamente belos, com olhos muito escuros (a cor habitual dos olhos é a de nogueira) e narizes aquilinos; os outros estavam tão desfigurados pelos orifícios abertos em seus lábios inferiores e nos ouvidos para receber seus bárbaros ornamentos que dificilmente podemos dizer com que se pareciam. Eu pensava que o privilégio de embelezar dessa maneira o rosto era reservado aos homens mas as mulheres deste bando estão igualmente desfiguradas. Compramos, de um dos homens, uma peça da boca, medindo uma polegada e meia de diâmetro. Os ornamentos usados por esse povo são peças de madeira perfeitamente circulares que se inserem na fenda do beiço ou da orelha, como um botão, e os tornam extremamente apavorantes, especialmente quando comem. Dão à boca a aparência de uma de macaco, e a careta especial que elas provocam é tão horrendamente anormal que leva a gente a acreditar, se é que não sugeriu originalmente, nas lendas do canibalismo. A boca é ainda mais feia sem a peça nos lábios, quando aparecem os dentes e a saliva fica escorrendo.

Cemitério dos Ingleses

Cemitério dos Ingleses na antiga Praia da Gamboa
Fui hoje a cavalo ao cemitério protestante, na Praia da Gamboa, que julgo um dos lugares mais deliciosos que jamais contemplei, dominando lindo panorama, em todas as direções. Inclina-se gradualmente para a estrada ao longo da praia; no ponto mais alto há um belo edifício constituído por três peças; uma serve de lugar de reunião ou às vezes de espera para o pastor; uma de depósito para a decoração fúnebre do túmulo; e o maior, que fica entre os dois, é geralmente ocupado pelo corpo durante as poucas horas (pode ser um dia e uma noite), que neste clima podem decorrer entre a morte e o enterro [...]

16.6.17

ARTE DE FLANAR PELO RIO (E POR PARIS)

COM FOTOS DO EDITOR DO BLOG DE SUAS FLÂNERIES PELA MUI LEAL E HEROICA CIDADE DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO


Flanar - andar ociosamente, sem rumo nem sentido certo; flanear, flainar, perambular (Dicionário Eletrônico Houaiss)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO JOÃO DO RIO

Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nos dicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças os ajuntamentos defronte das lanternas mágicas, conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Saúde, depois de ter ouvido dilettanti de casaca aplaudirem o maior tenor do Lírico numa ópera velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas, após ter acompanhado um pintor afamado até a sua grande tela paga pelo Estado; é estar sem fazer nada e achar absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir, levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de amor causa inveja.

É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela como Paul Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome delirante que é a rua; à porta do café, como Poe no Homem da Multidões, dedica-se ao exercício de adivinhar as profissões, as preocupações e até os crimes dos transeuntes. [...]

O flâneur é ingênuo quase sempre. Para diante dos rolos, é o eterno "convidado do sereno" de todos os bailes, quer saber a história dos boleiros, admira-se simplesmente, e conhecendo cada rua, cada beco, cada viela, sabendo-lhe um pedaço da história, como se sabe a história dos amigos (quase sempre mal), acaba com a vaga ideia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio. [...] Quando o flâneur deduz, ei-lo a concluir uma lei magnífica por ser para seu uso exclusivo, ei-lo a psicologar, ei-lo a pintar os pensamentos, a fisionomia, a alma das ruas. E é então que haveis de pasmar da futilidade do mundo e da inconcebível futilidade dos pedestres da poesia de observação...

Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é para mim um ser vivo e imóvel. (João do Rio, A alma encantadora das ruas)




A ARTE DE FLANAR (e ruminar) SEGUNDO MACHADO DE ASSIS

É meu costume, quando não tenho que fazer casa, ir por esse mundo de Cristo, se assim se pode chamar à cidade de São Sebastião, matar o tempo. Não conheço melhor ofício, mormente se a gente se mete por bairros excêntricos; um homem, uma tabuleta, qualquer basta a entreter o espírito, e a gente volta para casa "lesta e aguda", como se dizia em não sei que comédia antiga.

Naturalmente, cansadas as pernas, meto-me no primeiro bonde, que pode trazer-me à casa ou à Rua Ouvidor, que é onde todos moramos. Se o bonde é dos que têm de ir por vias estreitas e atravancadas, torna-se verdadeiro obséquio do céu. De quando em quando, para diante de uma carroça que despeja ou recolhe fardos . O cocheiro trava o carro, ata as rédeas, desce e acende cigarro; o condutor desce também e vai dar uma vista de olhos ao obstáculo. Eu, e todos os veneráveis camelos da Arábia, vulgo passageiros, se estamos dizendo alguma coisa, calamo-nos para ruminar e esperar.

Ninguém sabe o que sou quando rumino. Posso dizer, sem medo de errar, que rumino muito melhor do que falo. A palestra é uma espécie de peneira, por onde a ideia sai com dificuldade, creio que mais fina, mas muito menos sincera. Ruminando, a ideia fica íntegra e livre. Sou mais profundo ruminando; e mais elevado também. (Bons Dias, 21 de janeiro de 1889)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO JOSÉ DE ALENCAR

Sabeis o que é a flânerie? É o passeio ao ar livre, feito lenta e vagarosamente, conversando ou cismando, contemplando a beleza natural ou a beleza da arte; variando a cada momento de aspectos, e de impressões. O companheiro inseparável do homem quando flana é o charuto; o da senhora é o seu buquê de flores.
O que há de mais encantador e de mais apreciável na flânerie é que ela não produz unicamente o movimento material, mas também o exercício moral. Tudo no homem passeia: o corpo e a alma, os olhos e a imaginação. Tudo se agita; porém é uma agitação doce e calma, que excita o espírito e a fantasia, e provoca deliciosas emoções.

A cidade do Rio de Janeiro, com seu belo céu de azul e sua natureza tão rica, com a beleza de seus panoramas e de seus graciosos arrabaldes, oferece muitos desses pontos de reunião, onde todas as tardes, quando quebrasse a força do sol, a boa sociedade poderia ir passar alguns instantes numa reunião agradável, num círculo de amigos e conhecidos, sem etiquetas e cerimônias, com toda a liberdade do passeio, e ao mesmo tempo com todo o encanto de uma grande reunião.

Não falando já do Passeio Público, que me parece injustamente votado ao abandono, temos na Praia de Botafogo um magnífico boulevard como talvez não haja um em Paris, pelo que toca à natureza. Quanto à beleza da perspectiva, o adro da pequena igrejinha da Glória é para mim um dos mais lindos passeios do Rio de Janeiro. O lanço d'olhos é soberbo: vê-se toda a cidade à vol d'oiseau, embora não tenha asas para voar a algum cantinho onde nos leva sem querer o pensamento. (Ao correr da pena, 29/10/1854)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO JOAQUIM MANUEL DE MACEDO

Hoje em dia uma viagem a Lisboa é coisa mais simples do que um passeio ao Corcovado.

Entretanto, eu estou convencido de que se podia bem viajar meses inteiros pela cidade do Rio de Janeiro, achando-se todos os dias alimento agradável para o espírito e o coração.

O passado é um livro imenso cheio de preciosos tesouros que não se devem desprezar; e toda a terra tem sua história mais ou menos poética, suas recordações mais ou menos interessantes, como todo o coração tem suas saudades. A capital do Império do Brasil não pode ser uma exceção a esta regra.

Vamos dar princípio hoje a um passeio pela cidade do Rio de Janeiro? É um convite que faço aos leitores do Jornal do Comércio. Se o passeio parecer fastidioso ou monótono, não haverá o menor inconveniente em dá-lo por acabado no fim da primeira hora; se agradar, continuaremos com ele até... até... quem sabe até quando? Provavelmente conversaremos de preferência a respeito dos tempos que já foram e, portanto, não é preciso que nos lembremos já do futuro, marcando o fim da nossa viagem amena.

Vamos passear. (Joaquim Manuel de Macedo, Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO HELIO BRASIL

Sugiro ao leitor demorar sua observação em alguns cantos do bairro. Quem sabe, até realizar caminhadas para descobertas de encantos imprevisíveis...

A era do automóvel, este “ente” maravilhoso do qual dependemos excessivamente, cada vez mais nos impede de apreciar o espaço que nos cerca. A velocidade nos rouba o convívio com os lugares por onde passamos e, sem o convívio, os significados empalidecem.

Não é à toa que, por vezes, "descobrimos" uma ruela, um beco, um conjunto de casas, um simples muro desenhado pela intempérie pelo qual passamos "batidos", no dia-a-dia, sem a real oportunidade de conhecê-los.

A "medida" do homem ainda é o seu passo. (Helio Brasil, São Cristóvão.)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO PEDRO NAVA

Flanar nas ruas do Rio é prazer refinado. Exige amor e conhecimento. Não apenas o conhecimento local e o das conexões urbanas. É preciso um gênero de erudição. É preciso saber colocar os pés nos locais de Matacavalos onde pisou Osório, na calçada de São Clemente onde andou Tamandaré, nesta Glória onde perpassou o vulto de Capitu — na geografia citadina real e imaginária, no Rio velho de Manuel Antônio de Almeida, Alencar, Macedo, Artur e Aluísio — irmãos Azevedo; de Lima Barreto, João do Rio, Marques Rebelo, Drummond. [...]

O conhecimento puramente local do Rio eu o aprendi numa grande escola: o serviço de ambulâncias do velho Hospital de Pronto Socorro. Dizem que quem mais entende de nossa cidade são os choferes de táxi e os médicos da Assistência. Pertenci ao grupo... E sei descobrir os segredos — a polpa de nossas ruas. Exemplo? Um belo dia verifiquei que o Rio era a cidade mais rica das que eu conhecia em matéria de serralheria. Aprendi a admirá-las. [...]

Mas andando a pé em nossa cidade não são apenas épocas coloniais e imperiais que desvendamos. Tampouco fachadas pernambucanas, baianas ou mineiras que podemos ver. Viaja-se em todas as épocas e províncias do Brasil e pode-se sair também aí afora por esse mundo vasto mundo. [...]

À medida que as obras do Metrô e a insensibilidade dos procônsules nossos governantes vão demolindo de preferência o que há de sentimental, histórico e humano no Rio de Janeiro, multiplico meus passeios nas ruas malferidas — como quem se despede. (Pedro Nava, Galo das trevas, Memórias 5)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO O EDITOR DESTE BLOG

No Capítulo XXI de Quincas Borba, na viagem de trem de Barbacena ao Rio de Janeiro, Rubião observa que, “para quem estava acostumado a costa de burro, a estrada de ferro cansava e não tinha graça; não se podia negar, porém, que era um progresso...”

De progresso em progresso, descartamos o zepelim, o transatlântico, a maria-fumaça, o bonde (com a honrosa exceção do bondinho de Santa Teresa, o último dos moicanos). Viajamos espremidos na classe turística de monstruosos aviões. As atrações turísticas se sucedem qual programas de televisão sob a batuta do controle remoto: chegada em Paris, translado ao hotel, à tarde, city tour pelos principais monumentos, à noite, espetáculo no Lido, manhã seguinte, Museu do Louvre (correria pelos quadros mais “famosos”)...

Tudo muito vertiginoso. Um progresso, não se pode negar. Mas cá entre nós: pra conhecer uma cidade, você tem de caminhar por ela, sentir-lhe o burburinho, os odores, os sabores, o colorido, a paisagem humana.

Com o advento do assalto à mão armada, do poder paralelo dos traficantes, dos arrastões e tiroteios, passamos a temer nossa própria cidade maravilhosa e perdemos o costume de “andar por aí”, “sem lenço, sem documento”. Algumas páginas da literatura talvez nos inspirem a retomarmos esse hábito.

No conto machadiano "O Erradio", o personagem principal é um andarilho urbano. “Ia a toda parte; era comum achá-lo nos lugares mais distantes uns dos outros, Botafogo, São Cristóvão, Andaraí. Quando lhe dava na veneta, metia-se na barca e ia a Niterói. Chamava-se a si mesmo erradio.” Uma noite, após sair no meio de uma peça de teatro e tomar chá (!) no botequim próximo até o fechar das portas, Elisário (assim se chamava o Erradio) vai a pé do centro a São Cristóvão, percorrendo um Rio antigo em grande parte destruído pela abertura da Avenida Presidente Vargas e pelo aterro do Cais do Porto.

Quem leva à perfeição a arte de flanar pelo Rio antigo é Pedro Nava, que em sua obra autobiográfica descreve longos passeios pela Glória, Santa Teresa, Centro, São Cristóvão, Rio Comprido na primeira metade do século XX. E Helio Brasil, em seu primoroso livrinho São Cristóvão, sugere ao leitor “demorar sua observação em alguns cantos do bairro. Quem sabe, até realizar caminhadas para descobertas de encantos imprevisíveis...”




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO VICTOR HUGO

Andar sem destino, isto é, flanar, é um ótimo modo de o filósofo passar o tempo; particularmente nessa espécie de campanha um tanto bastarda, bastante feia, mas interessante, composta de duas naturezas, rodeando sempre as grandes cidades, especialmente Paris. Observar os arredores de uma cidade é ver algo de anfíbio. Finda-se o arvoredo, começam os telhados; acaba-se a relva, começam as calçadas; terminam os sulcos do arado, aparecem as lojas; findam-se as estradas, iniciam-se as paixões; fim do murmúrio divino, começo do rumor humano; daí seu extraordinário interesse.

Daí os passeios do pensador, aparentemente ao léu, a esses lugares tão pouco atraentes, marcados para sempre pelo epíteto de tristes que lhe deram os transeuntes. (Victor Hugo, Os miseráveis, Parte 3, V)




A ARTE DE FLANAR PELAS CALÇADAS DO RIO SEGUNDO JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS

Eu sou pé no chão. Acho que uma cidade se faz especial pelo conjunto de suas calçadas, aquilo que o tecnicismo dos urbanistas chama friamente de “espaço público”. Eu, andarilho, eu, peripatético, eu prefiro a definição do compositor Antônio Maria e aqui dou o primeiro passo digital sobre este grande pátio da felicidade ambulante, a alegria simples de caminhar numa “calçada cheia de gente a passar e a me ver passar”. Uma cidade é feita a partir desta possibilidade. [...]

Existe acima de tudo a calçada e é a partir dela que veremos [...] como caminha a humanidade carioca. Foi por uma calçada que a garota de Ipanema passou. A cena era tão deslumbrante, o balanço tão doce, que a partir dela Tom e Vinicius, a tudo assistindo, musicaram uma revolução sofisticada. O Brasil nunca mais foi o mesmo. Pergunte ao mundo: o Rio de Janeiro é uma calçada onde a vida caminha em sandálias de plástico.

A pompa e a circunstância têm domicílio em outras cidades, algumas mais ricas, outras com melhor arquitetura. Aqui existe a graça divina dos diversos cartões postais e, entre eles, o calçadão de Ipanema, o calçadão de Madureira e tantos outros calçadões, o aumentativo bandeiroso de um sonho de cidade. Todos os seus moradores perambulando vadios ao sol carinhoso do outono. O pedestre finamente no poder, os estranhos marchando sem qualquer sinal de estranhamento. [...]

O pedestre não polui, não engarrafa. Ao caminhar, o movimento básico recomendado para se manter um corpo saudável, ele libera a sua parte na verba da saúde para o estado gastar com outros mais necessitados.

O pedestre é o cidadão orgânico que exigem os tempos modernos e o espaço urbano deve ser organizado sob a sua perspectiva. Tirem esses postes inúteis do caminho, que ele quer passar com o seu andor. Ao pedestre que erra, ao itinerante que zanza, todo o pouco poder que da Constituição municipal lhe emana. Que possa recuperar a calçada. É a sua propriedade inalienável, onde tudo deveria convidar à liberdade de passear, paquerar, conversar, respirar, brincar ou protestar contra a corrupção que permite quiosques no meio do caminho.

Se a sorte estiver ao lado, que possa ver a garota de Ipanema flanar a caminho do mar.