21.1.18

INSCRIÇÕES FENÍCIAS NA PEDRA DA GÁVEA: LENDA URBANA OU VERDADE?

UMA PESQUISA DE IVO KORYTOWSKI


Supostas “inscrições fenícias” no alto da Pedra da Gávea vêm intrigando as imaginações desde a época de D. João VI, quando foram descobertas. Segundo algumas interpretações, o “rosto” (foto acima, seta) que aparentemente se vê na pedra seria a representação de uma esfinge, e a própria pedra serviria de túmulo a um antigo rei fenício. O filme Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa explorou esse tipo de ideia, e tratados, alguns volumosos, foram escritos defendendo a tese de que povos de outros continentes, como gregos e fenícios, estiveram na América antes da “descoberta”. Um clássico é Inscrições e tradições da América pré-histórica, de Bernardo de Azevedo da Silva Ramos, e atualmente circulam no YouTube e outras mídias vídeos defendendo essas teses que para os mais céticos se afiguram “esdrúxulas”, como este.


Artigo na Revista da Semana de 30 de abril de 1932 intitulado "Decifrado, afinal, o mistério da inscrição da Gávea" 

Em 1939, quando Dom Pedro II tinha treze anos e o Brasil era governado por um regente, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) organizou uma comissão, encabeçada por Manoel de Araújo Porto Alegre, para “analisar e copiar a inscrição, que se acha gravada no Morro da Gávea”. O relatório dessa missão, de 23 de maio daquele ano, foi publicado no Tomo I, Número 2, da revista do Instituto, que pode ser acessado aqui.

A comissão examina os argumentos a favor e contra a origem fenícia das inscrições, mas fica “em cima do muro”, não toma partido por nenhuma posição, seja de que os caracteres foram gravados pela mão do homem, ou de que são sulcos gravados pela linha do tempo. Diz o relatório: “Pitágoras, senhores, olhava para o sol como um Deus, e Anaxágoras como uma pedra inflamada. A comissão nesta sua primeira análise voltou, como os dois filósofos, vendo uma inscrição, e vendo uns sulcos gravados pela natureza.”

Os argumentos a favor da origem fenícia, segundo o relatório, são, em suma: 1) “diversos viajantes têm descoberto inscrições em diferentes rochedos do Brasil”; 2) “assim como Pedro Álvares Cabral, e Afonso Sanches, empurrados pelos ventos descobriram o continente da América, também alguns desses povos antigos, que a ambição do comércio forçava a sulcar os mares, podia por iguais motivos aportar às nossas praias e escrever sobre uma pedra um nome”; 3) “a inscrição da Gávea se acha colocada de uma maneira vantajosa a estas conjecturas”.

Os argumentos contra a origem fenícia são, em suma: 1) “os pretendidos caracteres, que apresenta o rochedo da Gávea, não se assemelham aos dos povos do velho continente, que empreenderam as primeiras navegações e muito menos aos dos modernos”; 2) “estes caracteres [...] não apresentam semelhança alguma de uma inscrição fenícia, cananeia, cartaginesa ou grega; e que mais parecem sulcos gravados pelo tempo, entre dois veios do granito”; 3) a profundidade dos sulcos é muito irregular; se os fenícios os tivessem gravado, teriam dado “a mesma profundidade às letras para que elas fossem igualmente visíveis”.

Primeira página do Relatório do IHGB

No final do relatório a comissão atribui a não tomada de uma posição ao fato de que “não empregou os últimos recursos, que lhe restam para verificação de semelhantes monumentos” e promete que “uma segunda exploração será feita com melhores instrumentos com um dia mais favorável, para ver se obtém um resultado de maior evidência, e mais positivo”, promessa esta nunca cumprida. A comissão encerra seu relatório declarando sua esperança no surgimento de um “Champollion brasileiro” que venha a “iluminar esta parte tão obscura da história primeira do nosso Brasil”. Você pode ler a íntegra do relatório do IHGB ao final desta postagem.

Este suposto Champollion brasileiro, decifrador da inscrição da Pedra da Gávea e de outras milhares Brasil afora, surgiu na primeira metade do século XX na figura de Bernardo de Azevedo da Silva Ramos (1858-1931), amazonense, numismata, historiador, fundador do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Em sua alentada obra Inscrições e Tradições da América Pré-histórica Silva Ramos examina milhares de supostas “inscrições” Brasil afora e decifra sua origem “grega”, “hebraica” ou “fenícia”, inclusive a famosa inscrição da Pedra da Gávea. Segundo o autor, essa inscrição significaria: Tiro, Fenícia, Badezir Primogênito de Jethbaal. Aqui está a figura 1226 (!) de seu livro onde demonstra sua interpretação, primeiro transcrevendo a inscrição para o hebraico, depois em letras romanas da direita para a esquerda (já que as escritas fenícia e hebraica seguem esse sentido) e enfim chega à tradução brasileira. Tudo parece muito lógico, muito convincente.



Mas existem dois senões:


1) O primeiro senão é o próprio método de Silva Ramos, que parece meio arbitrário, tipo interpretação de “profecia” de Nostradamus, em que você vê nas imprecisas e confusas centúrias o que você “quer” ver, não o que Nostradamus realmente disse. Vamos examinar na prática. Primeiro ele pega um desenho “rupestre” aparentemente sem sentido, assim:


Aí ele decompõe arbitrariamente o desenho em partes e associa essas partes a letras de um alfabeto antigo, formando alguma palavra, assim:


A seguir você tem a figura do livro de Silva Ramos com o exemplo acima e mais dois. Repare que a figura original que gera a palavra grega na verdade é confusa e não significa nada. Ademais, se gregos ou fenícios pretendiam fazer inscrições aqui no Brasil, por que escreveram dessa forma esquisita, aglutinando as letras num desenho confuso. Por que não escreveram de forma clara como faziam na própria Grécia ou Fenícia? 

Três exemplos do método de interpretação de Silva Ramos (o primeiro do qual destrinchamos acima)
2) O segundo senão é que Silva Ramos, ao transcrever a inscrição da Pedra da Gávea, já a “deformou” para se adequar à sua pretensa interpretação. Eis a prova. Em cima você vê a transcrição da inscrição feita pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e que se encontra no artigo citado; embaixo a transcrição de Silva Ramos. Ela não é fiel.

A inscrição como figura na revista do IHGB


A inscrição como aparece na obra de Silva Ramos

Vários especialistas contestaram a “teoria” de Silva Ramos. Vamos ver alguns deles.

· Segundo o professor Hilgard O’Reilly Sternberg, consultor-técnico do Conselho Nacional de Geografia, “as pseudo-inscrições da Pedra da Gávea consistem em uma série de sulcos proximamente verticais e foram produzidas pelas águas pluviais que descem do alto da montanha.” (Diário Carioca, 9 de junho de 1953)

· David J. Peres, em artigo do Jornal do Commercio de 4/9/1932 (pág. 3), escreve: “A arqueologia hoje tem um certo número de exigências, e não é só porque encontremos uns riscos em cima de uma pedra, que devamos concluir que foi de tal data ou de tal origem, e que tenha esta ou aquela tradução. [...] Tanto quanto se conhece hoje da língua fenícia, não se permite afirmar que os [traços] da Gávea sejam dessa origem. O alfabeto fenício era em geral representado por traços finos. Além disso, os da Gávea nada de comum apresentam com os cananeus e em nada se assemelham.”

· Em 28 de julho de 2000, uma expedição de cientistas da UFRJ e UERJ, munidos de um equipamento GPR (radar de penetração no solo) que “enxerga” através da rocha, não detectou nenhuma cavidade ou reentrância que pudesse servir de túmulo para um rei fenício. Segundo o geólogo Marco André Malmann Medeiros, da UERJ, “as tais inscrições não passam de falhas geológicas. Com as intempéries, os minérios mais sensíveis gastam e o resultado ficou com a aparência de inscrições”. (O Globo, 6 de agosto de 2000, p. 28)

Diz o historiador Milton Teixeira, que consultei: “Isso é lenda urbana. Mas tem gente (não muito séria) que leva a sério. Eu acho uma patacoada. Os sulcos na pedra são provocados pela erosão. Fizeram até um filme de fantasia sobre essa lenda: 'Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa' - 1968, com Roberto, Erasmo, Wanderléa e José Lewgoy.”

Segundo Alexei Bueno, que também consultei: “Essa é uma das histórias mais ridículas da nossa História. Os ‘fenícios’ [seus descendentes libaneses] chegaram no Brasil lá pela época da Primeira Guerra, mascates, caixeiros-viajantes, donos de armarinhos e fazedores de kibe e de esfiha.”

Para quem pretende se aprofundar no assunto, recomendo a excelente tese de doutorado de Guilherme Dias da Silva, intitulada “A recepção da Antiguidade nas Inscripções e Tradições da América Prehistorica de Bernardo de Azevedo da Silva Ramos (1930-1939)”, que pode ser acessada aqui.

A seguir, a íntegra do artigo de 1939 do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro que desencavei no site do instituto e “traduzi” para a ortografia hoje vigente. Agradeço ao historiador Nireu Cavalcanti que me informou da existência desse artigo.

ANEXO: 



RELATÓRIO
SOBRE
A INSCRIÇÃO DA GÁVEA
MANDADA EXAMINAR PELO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO

Senhores, a comissão encarregada pelo Instituto Histórico e Geográfico para analisar e copiar a inscrição, que se acha gravada no Morro da Gávea, transportou-se ao lugar, e não se poupou aos meios e fadigas, que uma primeira excursão demanda, para obter-se um resultado digno de sua missão; e vem hoje perante o Instituto Histórico e Geográfico dar conta do que viu e observou, assim como trazer uma cópia fiel da pretendida inscrição, desse monumento que pertence à classe daqueles, que Mr. Court de Gibelin coloca no seu “Mundo Primitivo”, e que têm chegado às recente gerações envolvidos no mistério dos tempos com os hieróglifos, os caracteres cuneiformes, e as construções ciclopeanas.

A descoberta de uma inscrição é um fato, que pode fazer uma revolução na história; que pode reconquistar ideias perdidas, e aniquilar outras em pleno domínio: um nome, uma frase em uma lápide, podem preencher lacunas imensas, restaurando conjecturas, e abrir uma estrada luminosa do passado ao futuro.

Os povos que têm uma civilização nascente são naturalmente crédulos, e sua imaginação os arrasta a ver tesouros encantados por todas as partes; e os homens amigos dos mistérios algumas vezes também creem encontrar vestígios dos outros homens naquilo que é um acaso da natureza.

A comissão cumpre, que aqui manifeste perante o Instituto Histórico e Geográfico a sua gratidão para com os Sr. Rev. ex-vigário da Lagoa, Manoel Gomes Souto, Manoel Joaquim Pereira, e João Luiz da Silva, pela bizarra [=gentil] e cordial hospitalidade que deles recebeu; assim como ao Revisão. Sr. José Rodrigues Monteiro, Capelão de S. M. I. [Sua Majestade Imperial], que teve a bondade de acompanhar e servir de testemunha na averiguação da cópia que se fez da pretendida inscrição, participando dos incômodos sofridos nesta exploração arqueológica.

Senhores, que no cume da Gávea do lado direito aos que vão pelo Serrote [=pequena serra] da Boa-vista, numa pedra de forma cúbica existem caracteres, ou sulcos que a eles se assemelham, é indubitável; mas, a comissão não afirma que eles sejam gravados pela mão do homem, ou pela linha do tempo.

Assim como a natureza esculpiu sobre a rocha de Bastia a forma de um leão em repouso; na gruta das Sereias, em Tívoli um dragão em ar ameaçador; e na mesma Gávea a forma de um mascarrão [=máscara grande] trágico; assim como ela eleva pontos naturais, constrói fortificações e baluartes, que ao primeiro lampejo da vista fazem crer ao viajor monumentos da mão do homem, assim ela podia gravar na rocha viva aqueles caracteres que podem mais ou menos por suas formas aproximarem-se a algumas das letras dos alfabetos das nações antigas e orientais.

A comissão não deseja representar perante o Instituto Histórico o papel dos antiquários de Walter Scott e Goldoni, para não encontrar a ilusão de suas conjecturas na ingenuidade de um mendigo, ou nas trapaças de um Brighella [personagem mentiroso da Commedia dell'arte]; tanto mais que com os seus próprios olhos ela encontrou em diversas pedras isoladas em roda da mesma Gávea, sulcos profundos entre dois veios do granito, que mais ou menos representavam caracteres hebraicos, e alguns até romanos, e de uma maneira assaz evidente e caprichosa.

Pitágoras, senhores, olhava para o sol como um Deus, e Anaxágoras como uma pedra inflamada. A comissão nesta sua primeira análise voltou, como os dois filósofos, vendo uma inscrição, e vendo uns sulcos gravados pela natureza.

Argumentos notáveis se apresentam de uma e de outra parte para que ambas as conjecturas tenham seu fundamento, e suas principais proporções [proposições?] vão ser apresentadas.

1a Que os diversos viajantes têm descoberto inscrições em diferentes rochedos do Brasil, e que a da serra da “Anabastabia [Minas Gerais], onde se crê ver a descrição de uma batalha, assim como a das margens do Yapura e outras mais, que se veem na famosa coleção das palmeiras de “Spik et Martiles” [Spix e Martius?], dão uma prova da existência desta sorte de monumentos no nosso solo: acrescentando mais a tradição das “letras do diabo” num rochedo em Cabo Frio, que depois de dados mais exatos, algum de nós se transportará ao lugar para copiá-la, e descortinar mais esta ponta do véu que encobre a história primitiva desta terra bem-aventurada.

2 a Que assim como Pedro Álvares Cabral, e Afonso Sanches, empurrados pelos ventos descobriram o continente da América, também alguns desses povos antigos, que a ambição do comércio forçava a sulcar os mares, podia por iguais motivos aportar às nossas praias e escrever sobre uma pedra um nome, ou aquele acontecimento, para que a todo o tempo as gerações vindouras lhe restituíssem a glória de tão grande descoberta.

3a Que a inscrição da Gávea se acha colocada de uma maneira vantajosa a estas conjecturas: voltada para o mar em uma face da rocha cúbica, pouco escabrosa, com caracteres colossais de 7 a 8 palmos, ao rumo de L.S.E. [leste-sudeste], pode ser vista a olho nu de todas as pessoas que por ali passarem; e notável é que os habitantes daqueles lugares todos conhecem as letras da pedra. A inscrição assim colocada está exposta à fúria das tempestades e dos ventos do meio-dia, e por consequência deve estar mui safada [=gasta], tanto mais que o granito da pedra, em que está gravada, é de uma consistência menos forte, por conter muito talco e mica, e na sua base existem três concavidades esboroadas que formam o aspecto do mascarrão.

Um dos dados arqueológicos, para fortificar qualquer conjectura na averiguação de tais monumentos, é o da possibilidade de poder-se ou não gravar naquela altura imensa uma inscrição tão colossal, e o caráter geológico do mesmo lugar.

O terreno que circunda as raízes do Morro da Gávea é todo primitivo, à exceção de uma pequena enseada que está na base da colina da fazenda da Gávea, que é de terreno de aluvião, pouco acima do nível do mar, e que nada influi sobre os pontos principais que se denotam dos “Dois Irmãos” à Tijuca, e desta à Gávea, que são massas enormes de granito, cobertas de uma crosta de terra vegetal, assaz delgada, e tendo aqui e ali glebas de carbonato de ferro, ou saibro micoso; o mar está mui próximo, nenhuma revolução grande, se excetuarmos alguns calhaus destacados dos morros, se denota naquele recinto.

O homem, que levado àqueles lugares quisesse deixar uma memória da sua passagem, facilmente seria seduzido pela majestade e grandeza do Morro da Gávea, e pela disposição daquela pedra com uma face quase plana, e fronteira ao mar: enquanto ao acesso ao cume da Gávea ele é incontestável, porque dias antes da nossa exploração alguns oficiais da marinha inglesa lá subiram, e colocaram umas bandeirinhas, ainda que com muito custo.

O lugar onde está a inscrição pode ser que em tempos remotos fosse mais aterrado, e com os séculos tenha sido escalvado pelas contínuas umidades, chuvas e ventos do sul.

Porém, senhores, além dessas considerações, e outras mais diminutas, que conduzem o nosso espírito à crença, outras se levantam para encontrá-las, e nos obrigam a oscilar entre a afirmativa e a negativa.

1a Que os pretendidos caracteres, que apresenta o rochedo da Gávea, não se assemelham aos dos povos do velho continente, que empreenderam as primeiras navegações e muito menos aos dos modernos.

2a Que estes caracteres, comparados com os alfabetos e inscrições, que Mr. Court de Gibelin dá na sua obra do Mundo Primitivo, não apresentam semelhança alguma de uma inscrição fenícia, cananeia, cartaginesa ou grega; e que mais parecem sulcos gravados pelo tempo, entre dois veios do granito, pois com iguais aparências se encontram, não só no lado oposto do da inscrição da mesma Gávea, como em outras pedras destacadas, e principalmente uma grande, que se encontra à esquerda, na base do morro, quando se sobe para casa do Sr. João Luiz da Silva.

3a Que a parte da rocha, onde começa a pretendida inscrição, além de perpendicular e de um acesso quase impossível, é a menos conservada, ou a mais apagada; sendo aquela que está menos exposto à fúria das estações; alguns traços perpendiculares, outros mais ou menos oblíquos, mais ou menos curvos, ligados por hastes interrompidas, que muito e muito se assemelham a veios, fazem o todo da inscrição, e uma grande irregularidade de profundidade se observa na gravura, assim como no largo veio da base, que se poderia conjecturar como traço, para melhor se descobrirem as letras o qual é interrompido visivelmente, e dá formas não equívocas de um veio mais profundo. Este argumento é fortificado pela profundidade dos caracteres da parte esquerda, que estão mais expostos, do que os da direita, por entrarem na curva, que se dirige para o norte.

Os fenícios escreviam da direita para a esquerda, e trabalhando destarte, deviam dar a mesma profundidade às letras para que elas fossem igualmente visíveis.

Mas a comissão, senhores, vindo perante o Instituto Histórico e Geográfico dar conta de sua missão, está longe de protestar solenemente contra a ideia de ser, ou não, uma inscrição aqueles sulcos ou traços, que se encontram no cume da Gávea, porque ela ainda não empregou os últimos recursos, que lhe restam para verificação de semelhantes monumentos; ela vem, em família, expor as suas impressões e conjecturas, e protestar [=comprometer-se] que uma segunda exploração será feita com melhores instrumentos com um dia mais favorável, para ver se obtém um resultado de maior evidência, e mais positivo; lastimando contudo o não poder estudar a memória que o ilustre Fr. Custódio escrevera, noutros tempos, sobre esta mesma inscrição.

A comissão tem presente na lembrança as navegações desses povos da antiguidade, e se triunfar a ideia do ilustre Padre Mestre, ela a fortificará por uma memória mais ampla e circunstanciada, e nas formas demandadas pela ciência da Arqueologia, em que não somente passará em resenha todas as tradições que temos das navegações dos antigos, como também procurará nas línguas, e tradições de diversos povos, a esteira luminosa traçada pela civilização dos fenícios, entre os povos das ilhas, onde eles tiveram suas feitorias, e onde eles deixaram monumentos materiais de sua existência e passagem, tanto na Ásia e África, como na América, que segundo Stevam Sewall, e Court de Gibelin ali aportaram, e deixaram inscrições na parte setentrional.

A comissão não desespera [=perder a fé] da glória, que aguarda o Instituto Histórico e Geográfico na descoberta de iguais monumentos; nem da esperança de ver aparecer em seu seio um Champollion brasileiro, esse Newton da antiguidade egípcia ou Cuvier do Nilo, para com o facho de seu gênio indagador iluminar esta parte tão obscura da história primeira do nosso Brasil; e porque ela pode um dia contemplar aquele monumento como Anaxágoras o Sol, e no outro como Pitágoras, ver naquela rocha uma inscrição gravada pelo acaso e o tempo, ou um padrão, pelo cinzel do homem, deixado às gerações vindouras.



Rio de Janeiro, 23 de maio de 1839. Manoel de Araújo Porto-AlegreJ. da C. Barbosa. Como testemunha, José Rodrigues Monteiro.

20.1.18

SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO

SABE O PORQUÊ DO NOME SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO? O TRECHO A SEGUIR DO CAPÍTULO "AS PROCISSÕES" DAS MEMÓRIAS DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, DE VIVALDO COARACY, EXPLICA


Estátua de São Sebastião na Glória

Vinte de janeiro é o dia que a igreja consagra a São Sebastião. E São Sebastião é o padroeiro da cidade que foi posta pelo Fundador sob a sua invocação por ser o onomástico do soberano então reinante em Portugal, D. Sebastião, aquele rei-menino que foi morrer em Alcácer-Quibir. Quando Estácio lançou os fundamentos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, que mais tarde havia de receber oficialmente o atributo de “leal”, governava Portugal, como regente, pelo neto ainda na infância, a rainha viúva D. Catarina d’Áustria. Foi ela quem mandou levantar uma cidade às margens da Guanabara. Mas ninguém lhe homenageia a memória por isso. Muitos nem mesmo sabem quem foi. 

Denise Araripe: São Sebastião do Rio de Janeiro (técnica mista)


Cumprindo as ordens que da Rainha recebera, Estácio agarrou-se com unhas e dentes àquela língua de terra onde plantara o marco inicial da cidade a que ia sacrificar a vida. E ali ficou por dois anos, numa tenacidade heroica, até que Mem de Sá viesse da Bahia trazer-lhe o auxílio preciso para expulsar e esmagar definitivamente os franceses. Foi a 20 de janeiro de 1567 que se deu a batalha que assegurou o domínio lusitano sobre o Rio de Janeiro. São os combates desse dia, em que Estácio foi ferido de morte, que podem ser legitimamente comemorados nesta data.

Mem de Sá a escolhera para atacar os redutos de franceses e tamoios justamente por ser o dia do Padroeiro. Naqueles tempos de fé robusta e ingênua, confiava-se no santo protetor para dar a vitória à sua gente. Não se afirmava já então que o mártir fora visto, sob a forma de um mancebo “muy fero e fermoso”, combatendo em pessoa ao lado das forças de Estácio, na duvidosa batalha das canoas? Aliás, não se pode desconhecer que essa confiança no apoio dos santos dava valor e ânimo capaz de conduzir, como conduziu, à vitória.

Imagem de São Sebastião na Cidade do Samba, Gamboa

São Sebastião foi sempre o padroeiro do Rio de Janeiro e, como tal, alvo de um culto carinhoso por parte dos cariocas. A ele foi consagrada a primeira capela erguida nestas terras: uma tosca igrejinha de taipa, coberta de sapé que Estácio se apressou em mandar levantar no primeiro sítio da cidade, ao sopé do Pão de Açúcar. Era a matriz, incipiente. E nela foi sepultado, de início, o próprio Fundador. Transferida a cidade para o Morro do Descanso, que depois se chamou do Castelo, um dos primeiros cuidados de Salvador de Sá foi ali erguer a igreja do Padroeiro, a Sé Velha, para onde foram trasladados os restos mortais de Estácio de Sá, hoje repousando na nova igreja de São Sebastião, sob a guarda dos Barbadinhos, na rua Haddock Lobo. 

Uma relíquia carioca: imagem recém-restaurada de São Sebastião do séc. XVI trazida por Estácio de Sá e guardada (e ocasionalmente exposta) na Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca

Sempre foi muito devoto do seu patrono o povo do Rio de Janeiro. Nos tempos coloniais e nos da monarquia, a festa de São Sebastião era celebrada com vibrante entusiasmo em que as comemorações oficiais se aliavam às manifestações populares. Salvas das fortalezas e dos navios, parada de tropas em grande gala, cerimônias religiosas com missa solene e sermão adequado, repiques de sinos, foguetório, janelas ajaezadas de colchas de damasco e tapetes do oriente, luminárias em todas as casas, danças populares em plena rua. Os festejos estendiam-se ao mar onde se efetuava um combate simulado, com fogos de artifício, entre dois grupos de embarcações, para rememorar a famosa batalha das canoas em que, segundo a lenda, o Santo em pessoa tomara parte, descendo à terra, vindo combater ao lado de seus devotos, na defesa da sua cidade. Com a vinda para o Rio de Dom João VI, rei beato por excelência, os festejos religiosos e oficiais adquiriram ainda maior pompa e brilho, iniciando-se na noite de 17 de janeiro.

Imagem de São Sebastião na Igreja de São Francisco de Paula

Estátua de São Sebastião na Glória

Grafite de São Sebastião na Zona Portuária (fotos do editor do blog, exceto da obra de Denise Araripe, obtida no site do Atellier Villa Olivia)

8.1.18

A INVENÇÃO DA MEMÓRIA NO ROMANCE DE CONY, de Edmílson Caminha


Pelas páginas de Quase memória, Carlos Heitor Cony regressa à literatura brasileira em grande forma. O livro é admirável, da ideia que o originou à beleza do estilo, do bom humor que o enriquece à emoção que o permeia. Desde 1974, com o lançamento de Pilatos, o romancista se vinha deixando silenciar pelo jornalista, pelo redator da Manchete, pelo editor da Bloch, pelo articulista da Folha de S. Paulo. Até que lhe ocorreu, um dia, escrever sobre o pai, Ernesto Cony Filho, que parece já nascera personagem de novela, tantas e tão pitorescas são as histórias que protagonizou. Ficcionista experimentado, percebeu que não compunha propriamente um romance, como esclarece na "Teoria geral do quase" com que se dirige ao leitor: "Falta-lhe, entre outras coisas, a linguagem. Ela oscila, desgovernada, entre a crônica, a reportagem e, até mesmo, a ficção. Prefiro classificá-lo como 'quase-romance' ‒ que de fato o é. Além da linguagem, os personagens reais e irreais se misturam, improvavelmente, e, para piorar, alguns deles com os próprios nomes do registro civil. Uns e outros são fictícios." Ao contrário do que representam para autores menos brilhantes, a indefinição da linguagem e a indeterminação do gênero só engrandecem o texto de Quase memória, como liberdades que se ofereceram ao romancista para que pudesse construí-lo.

Ernesto Cony Filho era mesmo uma grande figura, a alma plena de sabedoria, o coração cheio de esperança, a cabeça tomada pelas ideias mais excêntricas. "Amanhã farei grandes coisas", era a disposição com que esperava o dia seguinte. Sem nenhuma surpresa,  viu cruzar a noite, para morrer justo no seu quintal, o enorme balão que soltara doze dias antes: "as coisas tendem a voltar ao lugar de origem", foi a explicação que deu ao pequeno Carlos Heitor, impressionado com a assombrosa coincidência. Ao saber dos milagres do "taumaturgo de Urucânia", no interior de Minas, organizou um comboio cujos vagões partiram do Rio de Janeiro apinhados de doentes, na ilusão da cura. Episódio tão hilariante quanto este só o vivido pela dupla Paulo Campos e Barão, picaretas que, para conseguir o dinheiro com que sustentar um jornaleco, convencem o governador de Minas a lançar-se candidato contra Júlio Prestes e Getúlio, nas eleições que acabariam por deflagrar a Revolução de 30.

Essas as histórias que Carlos Heitor Cony guardou do seu velho pai, há muito adormecidas na lembrança. Até a tarde em que, depois do almoço de costume no Hotel Novo Mundo, o porteiro lhe entrega o pacote trazido por um hóspede. O narrador não esconde a emoção: a letra do sobrescrito, a fórmula do endereço, a espécie de laçada no barbante são do pai, só ele os faria com aquela minúcia. E recentemente, vê-se pelo frescor da tinta e pelo brilho do papel. Mas como, se Ernesto Cony Filho morrera há dez anos?! O mistério desafiará o romancista e prenderá os leitores até o último instante  ‒ quando o filho abre o pacote e desvenda o segredo... ou deixa-o fechado para sempre, guardando na escuridão da incerteza a presença viva do pai.

A passeio no Rio, quis dizer pessoalmente a Cony da emoção que me dera o Quase memória. Encontramo-nos no edifício da Manchete, onde ocupa o escritório que foi do ex-presidente Juscelino. A observação de que trouxera de volta não apenas o próprio pai, mas, de certa maneira, o de cada leitor é a da maioria dos que o procuram:

— Quando pensei em escrever o livro, não pretendia fazer memória nem ficção. Daí a maneira vaga como o defini: quase-memória, quase-romance... O que eu queria, na verdade, era apenas falar sobre o meu pai, dizer o que sinto sobre ele, o que me ficou dele ‒ fazer-lhe justiça, enfim. Parece que, com essa confissão extremamente pessoal, acabei traduzindo o sentimento de muitas pessoas. Quase todas declaram exatamente o que você acaba de dizer: que, ao lembrar a figura do meu pai, acabei resgatando, de alguma forma, a lembrança de todos os pais. Curioso é que, antigamente, o meu público leitor era formado preferencialmente por mulheres: acho que os meus romances interessavam mais a elas... Com o Quase memória, está acontecendo exatamente o contrário: são os homens que se dizem emocionados com o que escrevi.

Comento-lhe que o melhor de Um brasileiro em Berlim é a tocante homenagem que João Ubaldo Ribeiro presta ao pai, como se houvesse hoje, entre os nossos romancistas, um "movimento pela reabilitação paterna", que teria certamente o apoio de Cony:

 — Acho isso interessante, porque o pai sempre levou uma grande desvantagem com relação à mãe, no conceito dos filhos e da própria sociedade. Se alguém ofender moralmente a sua mãe, você pode até matá-lo e arguir o fato para se defender perante a justiça; se a agressão for contra o pai, não. Fico satisfeito por contribuir, com o sucesso do meu livro, para a reabilitação dos nossos pais...

 Disputando com O xangô de Baker Street, de Jô Soares, e Benjamim, de Chico Buarque, Quase memória foi um dos lançamentos que mais venderam em 1995, provocando gestos que surpreenderam o autor:

— Todo mundo sabe que não gosto do Antônio Carlos Magalhães, por tudo que representa de ruim na política brasileira. Pois bem: um dia desses, critiquei-o numa crônica e ele me passou um fax espinafrando de alto a baixo. No finalzinho, porém, disse que leu o livro e adorou, fez altos elogios à minha obra. Dias depois, encontramo-nos em uma solenidade na Bahia: ele veio me cumprimentar e pediu que lhe autografasse um exemplar para o filho, deputado Luís Eduardo Magalhães. Eu fiquei pensando: "O Luís Eduardo deve tudo ao pai, a sua carreira política nem teria começado sem a bênção paterna. Ora, o senador quer que ele leia o livro talvez porque seja aquela a maneira como gostaria de ser lembrado no futuro. Se quem merece toda a gratidão do filho pode não estar satisfeito com a imagem que tem, imagine como não devem sentir-se os outros, que fizeram muito menos..."

Despeço-me de Carlos Heitor Cony elogiando-lhe a boa forma com que chega aos setenta anos:

— Você me acha bem fisicamente, mas isso é só aparência. Estou com um problema de saúde, tanto que, depois do Natal, irei aos Estados Unidos fazer uns exames. Ficarei no Mount Sinai Medical Center, o mesmo onde morreram Tom Jobim, Pedro Collor e Jacqueline Onassis. Espero que eu não seja o próximo... Mas a ideia da morte, na verdade, não me angustia: se todos nós vamos morrer, eu, pelo menos, já tenho uma causa...

13.12.17

RIO DE JANEIRO ANTES E DEPOIS, de CYRO DE MATTOS


A primeira vez que vi o Rio de Janeiro foi pela janelinha do avião. Perde-se na memória dos anos quando isso aconteceu. Por ter sido aprovado no exame do vestibular do curso de Direito, em Salvador, recebi como presente do pai uma viagem para conhecer o Rio de Janeiro onde permaneceria durante trinta dias, divertindo-me e conhecendo os lugares pitorescos da cidade cantada como maravilhosa em nosso cancioneiro.


Na minha terra natal, no interior da Bahia, e em Salvador, onde fui estudar o curso clássico, ouvia ser chamada de maravilhosa a cidade que seduzia os brasileiros e gente que vinha do estrangeiro para conhecê-la de perto, com o seu jeito mestiço e alegre. Uma canção dizia que Copacabana era a princesinha do mar, não existia praia mais bela cheia de luz, nas suas areias desfilavam sereias.


O Maracanã tinha jogos empolgantes, entre as principais equipes cariocas, era uma festa de bandeiras, erguidas por torcedores vibrantes, a cada lance empolgante da partida jogada no tapete verde. De qualquer lugar você via o Cristo abençoar a cidade, os generosos braços abertos ao abraço imenso. O bondinho do Pão de Açúcar transportava gente brasileira e do estrangeiro para lá em cima do morro percorrer os olhos deslumbrados pela paisagem da cidade embaixo, cercada de morros e favelas, povoada de edifícios como espigões que furavam o céu.


Do Pão de Açúcar você tinha a cidade a seus pés, pressentindo-a com o seu ritmo por dentro, na alegria que irrompia do futebol no Maracanã e nas escolas de samba quando chegava o Carnaval. Havia, nesse tempo bom para ser vivido, sempre um sorriso na passagem da vida, embora as favelas fossem se expandindo por vielas e becos, intimidando lá do morro com as quadrilhas disputando o poder no tráfico de drogas. Gente perigosa descia a ladeira e no asfalto investia contra a cidade, tendo no rosto o espanto do assalto acompanhado da morte.

A cidade ainda não ultrapassava os limites sem fim do seu galope amarelo. Na Rua do Catete, por exemplo, com sua gente nas esquinas, discutia-se futebol e política, as luzes dos postes iluminavam à noite os ônibus e carros que passavam, alguns gatos fugiam dos velhos casarões e vinham caminhar nos passeios. O bairro do Flamengo era povoado de bares, lojas e pensões, o vento trazido do mar despejava o cheiro de maresia nos ares em silêncio.

Durante o dia, no centro, a cidade acontecia com um povo afobado, andando com pressa, a subir nos ônibus, a encher os cafés e as lojas, a entupir os passeios, a zumbir como abelhas nos ruídos de uma colmeia gigantesca. O barulhão dos motores e das buzinas, o fumaceiro dos ônibus, os sacos de lixo nas calçadas, fregueses comprando jornal ou revista nas bancas do passeio e das galerias, tudo isso enchia de prognósticos a vida diária, que a cada dia aumentava com sua gente, entre o alegre e o triste, pressentida do prognóstico que iria extraviar-se por várias direções.


A cidade ainda era cantada em prosa e verso como a que tinha encanto de sobra, chegando a causar arrepio. Naqueles idos de 1968, depois da refeição do jantar, ia com a esposa fazer o percurso entre a Rua Correia Dutra e o Largo do Machado. Era bom caminhar despreocupado. Sentir o movimento da cidade que passava segura, sem muita pressa. Voltávamos de mãos dadas, sem ter medo de nada, pois aquele vento bom, que vinha do mar, dava-nos a certeza de que viver naquela cidade grande valia a pena, chegando a ser um privilégio.

Depois de transcorridos alguns anos na cidade grande, voltei a residir em minha terra natal, no interior baiano. Os três filhos, já criados e casados, deram-me seis netos. Quanta generosidade da vida! Se me perguntassem se gostaria de morar hoje no Rio de Janeiro, seria difícil dizer sim. Nem sempre é fácil um homem do interior acostumar-se a morar numa cidade imensa, com ritmo veloz e intenso nos tempos de hoje, de disputa exacerbada pelo espaço, para não se falar do medo que ultrapassou os limites de seu galope amarelo.


Medo de ir ao supermercado. Medo de andar de ônibus. Medo de sair de casa e não voltar. Medo de ser alcançado pelo tiroteio trocado entre a polícia e os traficantes de droga, em plena luz do dia. Medo de ser atropelado por um ônibus, que subiu desembestado no passeio. Medo de ser morto pela briga das torcidas antes mesmo de o jogo ser iniciado. Medo de ser pisoteado na passeata pela multidão, que de repente confrontou-se com a facção rival. Medo de ser queimado no ônibus. Medo de ser morto por uma bala perdida quando estava rezando na missa.

Meu Rio de Janeiro, apesar de todos os traumas dos tempos atuais, gosto muito de você.

*Baiano de Itabuna, onde reside, Cyro de Mattos é contista, novelista, romancista, cronista, poeta, autor de livros para jovens e crianças, organizador de antologia e coletânea. Já publicou quarenta e três livros pessoais no Brasil e doze no exterior: Portugal, Itália, França, Espanha e Alemanha. É membro efetivo da Ordem do Mérito da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras da Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Sul da Bahia). Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. 

1.12.17

EDMONDO DE AMICIS NA CIDADE MARAVILHOSA


Em 1884, retornando de uma viagem à Argentina que resultou na obra Sull'oceano (sobre a qual fiz uma postagem no meu outro blog, o Sopa no Mel, que você pode acessar aqui), o escritor italiano Edmondo de Amicis, mais conhecido por seu clássico Coração, fez uma breve escala no porto do Rio de Janeiro, mas somente dezoito anos depois (1902) veio a escrever um artigo sobre a cidade, publicado no suplemento La Lettera do jornal milanês Corriere della Sera. O artigo foi incluído como "bônus" na edição brasileira do livro citado, intitulada Em Alto-Mar, publicada em 2017 pela Nova Alexandria em coedição com o Istituto Italiano di Cultura, com tradução, curadoria e notas de Adriana Marcolini. Em seguida, alguns trechos do artigo de De Amicis.  Observe que esta talvez seja a primeira vez em que se faz alusão à cidade como "maravilhosa" numa crônica. As três fotos de Marc Ferrez de 1890, obtidas na Biblioteca Nacional Digital, dão uma ideia de como teria sido a cidade na época em que De Amicis a visitou.



– Por que o senhor nunca escreveu nada sobre o Rio de Janeiro?

Esta pergunta me foi feita uma centena de vezes durante os dezoito anos que se passaram desde que fui ao Brasil, e cem vezes dei sempre a mesma resposta pronta, tal como fazem os deputados quando conversam com os eleitores: – Porque fiquei apenas três dias, quando o Sírio, o navio em que viajei de Buenos Aires para Gênova, fez uma escala no porto da cidade. Amigos bondosos se desdobraram para me mostrar tudo, levando-me para todos os lados de carruagem, de bonde e em via férrea, desde cedo até a noite, como alguém que quisessem salvar da caça de uma banda de credores; vi muito, mas vi tudo correndo, afobado e com os olhos ofuscados pelo cansaço, de forma que me esqueci de muitas coisas, e de outras só tenho uma vaga lembrança, e até das imagens que se mantiveram mais vivas tenho lacunas obscuras, sobre as quais mesmo se reflito longamente nunca consegui captar uma mínima recordação. O que poderia escrever? Seria como descrever um sonho.

A esta resposta de sempre, poucos dias atrás, um intrépido italiano, que recentemente voltou do Brasil para Itália, rebateu sagazmente: – Mas o senhor não se sente tentado a fazer a descrição de uma cidade maravilhosa, onde permaneceu somente poucas horas, e da qual se lembra apenas como um sonho?

– Eis aí uma ideia – pensei.

E aquela ideia colocou-me a pena na mão e pregou-me à escrivaninha.

Mas eis uma lacuna da memória justamente bem no começo, no momento em que o Sírio, em uma esplêndida manhã de junho, ainda balançava no porto do Rio de Janeiro. [...] O mensageiro bem-vindo estava no meio de muitos italianos queridos: lembro-me do nome de alguns, mas não me lembro da fisionomia de nenhum deles. E não me recordo nem mesmo como desembarquei, com quem subi na carruagem, o que vi nas ruas que percorri para ir a Botafogo, o bairro da aristocracia e dos diplomatas, onde me esperava o secretário da legação italiana [...] Lembro-me só de um detalhe daquele trajeto: a forte tentação, vencida com muito sofrimento, de pular da carruagem quando passamos por uma feira de frutas. Ah, que atração mágica, aquelas frutas tropicais grandes, de formas e cores desconhecidas! Eu me esqueci dos bairros, dos monumentos, dos personagens ilustres, mas ainda tenho diante dos olhos, em meio às vendedoras de frutas negras e mulatas, agachadas no chão, entre as pilhas de abacaxis e de bananas douradas e prateadas, aquelas frutas misteriosas que se parecem com pinhas verdes, com bolas douradas, com tomates em forma de fuso, com abóboras metálicas, algumas das quais, cortadas ao meio, revelavam uma cremosidade branca e rosada e prometiam sabores extraordinários.

Que ruas terei eu subido para chegar ao morro da Tijuca, o famoso belvedere da Baía, o passeio clássico do Rio de Janeiro? Parece-me agora que a carruagem puxada por quatro burros, na qual, se não me equivoco, estavam comigo o cônsul Glória, o valoroso Jannuzzi e o gentil farmacêutico Foglia, tenha chegado lá em cima como uma bola voadora através da neblina. Recordo apenas do último trecho do longuíssimo trajeto, pelas vielas de um parque encantador, ladeadas por uma vegetação soberba, entre as quais despontavam samambaias gigantescas elegantemente esbeltas que tinham a forma de guarda-chuvas e uma admirável tonalidade verde-clara, onde, com breves intervalos, a carruagem passava rente a solitários cidadãos brasileiros que estavam ali pacientemente à espera da graciosa presa, com o rosto voltado para o alto e segurando a rede para caçar borboletas, em pose de filósofos armados.

Sim, Mantegazza tinha razão quando me escreveu: – Queira me desculpar, mas o Rio de Janeiro é mais bonito que Constantinopla. Não é que a cidade seja mais bonita, mas sim o lugar, as águas, toda a natureza que a circunda. Oh, não há comparação!


O que dizer da cidade do Rio de Janeiro? Quem a definiu melhor comparou-a a um polvo imenso, que tem a cabeça na pequena cidade original de São Sebastião – implantada entre duas colinas à beira da baía, todavia quase intacta; cheia de ruas estreitíssimas e em linha reta, de aspecto antigo, embora ainda não tenha quatro séculos – e avança para o mar; seus infinitos tentáculos, formados por fileiras de bairros cujas extremidades têm entre si uma distância maior do que de uma ponta à outra de Londres, enfiam-se por aqui e ali, em volta de lagoas e curvas, subindo morros, entrando por vales, adentrando em extensas planícies. Percorri intermináveis trajetos de carruagem entre os mais distantes pontos. Meu cicerone anunciava de vez em quando o nome de um novo bairro, e me indicava uma vista diferente das ilhas, da outra margem da baía, e das montanhas que a circundam. Mas como lembrar-se daquele monte de nomes portugueses e indígenas, daquela grande variedade de panoramas admiráveis, de tantas passagens de um bairro deserto para outro cheio de vida, de um porto para um parque, da planície para a altitude? Às vezes parecia que a cidade tivesse acabado, mas pouco depois recomeçava. Às residências carregadas dos primeiros construtores portugueses seguem-se as casas de campo surgidas há pouco, que dão ostensivamente para os jardins como para tomar grandes goles de ar.

Todas as minhas lembranças do Rio de Janeiro brilham de verde: admita-se a metáfora de mau gosto. Revejo em pensamento que, para além de qualquer coisa, o mais bonito é a vegetação opulenta, ostensiva, dominadora, e vem-me à mente a imagem de pobreza, aquela que, mesmo esquálida, também confere beleza e alegria às cidades dos nossos países. As árvores brotam do empedrado das ruas assim como na Itália os tufos de grama surgem dos velhos muros, obstinados em viver a qualquer custo, nas condições mais adversas para a vida; dos muros dos jardins despencam ramos floridos, cabeleiras esverdeadas, guirlandas e cascatinhas de folhagens e flores; por todos os lados abrem-se jardins cheios de todo tipo de samambaias, orquídeas, bromélias, bananeiras com folhas grandes, exuberantes e carregadas que parecem competir com o espaço e a luz e querer dominar as casas. A maioria das praças é palco de jardins deslumbrantes, onde as árvores gigantescas, com troncos estranhos e folhagens graciosas são tão densas, disformes e de aspecto tão diverso, com tons tão diferentes de verde que o olho se cansa até de vê-las pouco, e quase tem uma sensação de ofuscamento, como se estivesse diante de um espetáculo em constante mutação.


Sim, sem dúvida, subi no topo do Corcovado, o glorioso morro corcunda que forma a cabeça de um Gigante deitado; do qual o não menos celebrado Pão de Açúcar representa os pés unidos, que despontam do mar. [...] Visitei o admirável Jardim Botânico, nas proximidades da Lagoa Rodrigo de Freitas, mas com exceção da grande alameda das Palmeiras gigantes, famosa na América tal como o pinheiral de Ravenna na Europa, e de um copo de cerveja que engoli quando senti uma sede enorme, não tenho mais nenhum rastro na memória.

9.11.17

AQWA CORPORATE, UM PRESENTE ARQUITETÔNICO PARA O RIO DE JANEIRO



Surfando a onda da revitalização da Zona Portuária, o Casa Cor deste ano realiza-se no recém-inaugurado AQWA Corporate, arranha-céu espelhado e inclinado, empreendimento da Tishman Speyer, primeiro edifício brasileiro assinado por Norman Foster, vencedor de um prêmio Pritzker, o Nobel da arquitetura, como você pode ler em matéria de O Globo. Em sintonia com o espírito do edifício, os arquitetos expõem ambientes funcionais, clean, executivos, em sua maioria. A vista do edifício também é espetacular: Baía da Guanabara, Morro da Providência, Pão de Açúcar, Corcovado. Segundo a matéria de O Globo, “o empreendimento ‘verde’ tem certificação LEED. A inclinação de 20o do prédio faz com que a luz solar não incida diretamente nas janelas, o que ameniza o calor e melhora a acústica. O ambiente panorâmico quase dispensa a luz artificial durante o dia. O prédio possui uma estação que coleta a água da chuva para irrigar jardins e ser utilizada em banheiros, além de outros recursos sustentáveis.” No alto um terraço (sky lobby para os íntimos) oferece vista de mirante. No térreo ficarão lojas e cafés. O Casa Cor, além de mostrar as novidades em termos de decoração e planejamento de ambientes, oferece uma oportunidade de conhecer esse arrojado edifício. Depois que os escritórios estiverem funcionando normalmente, só quem for visitar um deles poderá entrar no prédio. A hora é esta!!!

Panorama: Pão de Açúcar, Morro da Providência, Corcovado e Cidade do Samba à direita

Pão de Açúcar

Pão de Açúcar

Mosaico: Corcovado

Autorretrato

Porcelana

Luminárias

Vista para a Baía da Guanabara

Vista para a Baía da Guanabara

Cais do Porto. Fotos do editor do blog.