10.4.18

ILHA DE PAQUETÁ



Paquetá já não tem o charme dos anos 1920 quando senhorinhas e rapazes realizavam convescotes na aprazível ilha, com concurso de danças (Revista da Semana, 11 de novembro de 1922), nem é mais cenário de romances como A moreninha. Ninguém mais vem a Paquetá para tratamento de saúde da filha (sol e banhos de mar), como fez Licinio Athanazio Cardoso de 1891-95, e a ilha não recebe mais estadistas caídos em desgraça como o patriarca da independência. Sequer recebe mais elogios de estadistas, como o de Joaquim Nabuco, que em Minha formação escreve que “A ilha de Paquetá é uma joia tropical, sem valor para os naturais do país, mas de uma variedade quase infinita para o pintor, o fotógrafo e naturalista estrangeiro, nem se compõem mais canções como Luar em Paquetá

Ninguém mais convida a menina “pra tomar banho em Paquetá” (ou mesmo “pra piquenique na Barra da Tijuca, ou pra fazer um programa no Joá”), como na canção Vai com jeito imortalizada por Emilinha Borba. Nas revistas de hoje você não lê mais elogios pomposos como a graciosa Paquetá reserva apenas aos que penetram no seu seio de perfumes a contemplação das formosuras que não foram de longe pressentidas (Revista da Semana, 2 de abril de 1921), nem lê mais anúncios dizendo coisas como Aurora, seu procedimento me surpreende e me magoa. Esperei das 3 às 5 por você e só ontem recebi um recado de Lourdes, pelo telefone, dizendo que você não voltou de Paquetá [...] (Revista da Semana, 17 de setembro de 1921).

A classe média da Zona Sul já não passa os domingos lá, como passávamos nós, no meu tempo de criança, nos remotos anos 1960. O público agora é outro, é mais povão, torcida do Mengão, tipo público da Quinta da Boa Vista, que aliás já foi jardim da nobreza brasileira. Após uma campanha contra os maus tratos aos cavalos, as centenárias charretes foram substituídas por umas charretes elétricas que não têm a mesma poesia, mas têm a vantagem de não fazer cocô nas ruas. Tudo mudou.

Apesar dessas mudanças, Paquetá preserva sua essência: as casas ainda conservam muros baixos, jardins fronteiros, janelas sem grades. Carro na ilha só a ambulância (que raramente circula, já que a calma paquetaense favorece a boa saúde). Você entra na Casa de Arte numa tarde de domingo e se surpreende com uma seresta como nos tempos do Maestro Anacleto, que nasceu e sempre viveu na ilha.

Gente ilustre esteve ou morou em Paquetá: é o que nos ensinam as placas que preservam a memória da ilha. Marie Curie, que veio ao Brasil em 1926, teria dito ao jornalista Austregésilo de Athayde, segundo uma dessas placas, que “Paquetá é sem dúvida o mais belo recanto do mundo”. Outra dessas placas revela que Paquetá foi descoberta pelo cosmógrafo francês André Thevet em 18 de dezembro de 1555, ou seja, na época da França Antártica, ocupação que precedeu a fundação oficial da cidade. O Barão de Japurá, em Romances históricos por um brasileiro, que malgrado o título é um livro de poesias, escreveu: “Na Paquetá primorosa / Onde tristes mas sem tacha [=mácula]/ Passam-se os fugazes dias / Do ilustre e imortal Andrada [José Bonifácio]”. Joaquim Nabuco, no capítulo de Minha formação dedicado ao Barão de Tautphoeus, conta que

Nós tínhamos nos últimos tempos da vida de Tautphoeus uma pequena solidão em Paquetá, para as vizinhanças do chamado Castelo, em um remanso daquelas encantadoras paragens. Era uma antiga casa térrea a que um dos proprietários, um inglês, juntara uma varanda em roda e a meio um pequeno sobrado com venezianas verdes e balcão por onde subia uma trepadeira, dando-lhe um aspecto ao mesmo tempo singelo e pitoresco de residência estrangeira. A frente deitava para o mar e a parte baixa da costa do outro lado formava um suave fundo de quadro. A casa estava sobre uma pequena elevação, e o declive para a praia era tomado por um grande tabuleiro de grama, cuidadosamente tratado, como em um parque. [...] A nossa vivenda de Paquetá agradava-lhe por lhe dar com o silêncio e isolamento, que cercava a biblioteca, a escolha, à vontade, do mar, do campo e da montanha: as praias extensas, a floresta acessível, a planície atapetada, se lhe agradava passear; a água serena, o mar fechado à vista, como um lago suíço, se queria tomar o nosso barco e mandar o mudo, nosso saudoso remador, abrir a vela para os pequenos ilhotes de onde se avistam em um extremo os Órgãos de Teresópolis, e no outro a serrania da cidade... Ele vinha sempre aos sábados e ficava o domingo, e às vezes, nas curtas férias que tinha, dias seguidos...

Uma moradora que foi para Paquetá com sete anos e agora está com 77, se empolga e conta que “o imperador e a princesa Isabel frequentavam a ilha [!] e que a Capela de São Roque fica no lugar onde morou o santo [!!]”. Exageros à parte, a Capela é realmente uma das mais velhas do Rio, como você pode conferir na nossa postagem Qual a Igreja mais Antiga do Rio de Janeiro? (para acessar clique aqui).

Dito isto, o vídeo amador acima e as fotos a seguir contam mais que mil palavras!


Na barca

Paquetá

Capela do Cemitério de Paquetá, projeto do artista Pedro Paulo Bruno

Casas antigas & ciclista

Janela & flores

Raízes

Rio visto de Paquetá

Paquetaenses

Árvores

Capela de São Roque em Paquetá. A Capela de São Roque foi construída no finalzinho do séc. XVII (em 1698 segundo o Guia do patrimônio cultural carioca) nas terras da Fazenda de São Roque. O santo padroeiro dos proprietários da fazenda passou a ser também o dos habitantes da ilha. Até então a comunidade da ilha tinha de ir de barco até Magé a fim de participar de cultos religiosos. Tombada por decreto municipal de 1999.

Casa de Artes Paquetá. Vez ou outra rola um chorinho ali, confira no site.

Pescadores

Chalé

Tronco serrado de uma árvore que tombou

As casas ainda conservam muros baixos, jardins fronteiros, janelas sem grades

Na volta, a barca se aproxima do Centro do Rio. Fotos do editor do blog.

HORÁRIO DAS BARCAS para você também ir lá:


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