8.1.18

A INVENÇÃO DA MEMÓRIA NO ROMANCE DE CONY, de Edmílson Caminha


Pelas páginas de Quase memória, Carlos Heitor Cony regressa à literatura brasileira em grande forma. O livro é admirável, da ideia que o originou à beleza do estilo, do bom humor que o enriquece à emoção que o permeia. Desde 1974, com o lançamento de Pilatos, o romancista se vinha deixando silenciar pelo jornalista, pelo redator da Manchete, pelo editor da Bloch, pelo articulista da Folha de S. Paulo. Até que lhe ocorreu, um dia, escrever sobre o pai, Ernesto Cony Filho, que parece já nascera personagem de novela, tantas e tão pitorescas são as histórias que protagonizou. Ficcionista experimentado, percebeu que não compunha propriamente um romance, como esclarece na "Teoria geral do quase" com que se dirige ao leitor: "Falta-lhe, entre outras coisas, a linguagem. Ela oscila, desgovernada, entre a crônica, a reportagem e, até mesmo, a ficção. Prefiro classificá-lo como 'quase-romance' ‒ que de fato o é. Além da linguagem, os personagens reais e irreais se misturam, improvavelmente, e, para piorar, alguns deles com os próprios nomes do registro civil. Uns e outros são fictícios." Ao contrário do que representam para autores menos brilhantes, a indefinição da linguagem e a indeterminação do gênero só engrandecem o texto de Quase memória, como liberdades que se ofereceram ao romancista para que pudesse construí-lo.

Ernesto Cony Filho era mesmo uma grande figura, a alma plena de sabedoria, o coração cheio de esperança, a cabeça tomada pelas ideias mais excêntricas. "Amanhã farei grandes coisas", era a disposição com que esperava o dia seguinte. Sem nenhuma surpresa,  viu cruzar a noite, para morrer justo no seu quintal, o enorme balão que soltara doze dias antes: "as coisas tendem a voltar ao lugar de origem", foi a explicação que deu ao pequeno Carlos Heitor, impressionado com a assombrosa coincidência. Ao saber dos milagres do "taumaturgo de Urucânia", no interior de Minas, organizou um comboio cujos vagões partiram do Rio de Janeiro apinhados de doentes, na ilusão da cura. Episódio tão hilariante quanto este só o vivido pela dupla Paulo Campos e Barão, picaretas que, para conseguir o dinheiro com que sustentar um jornaleco, convencem o governador de Minas a lançar-se candidato contra Júlio Prestes e Getúlio, nas eleições que acabariam por deflagrar a Revolução de 30.

Essas as histórias que Carlos Heitor Cony guardou do seu velho pai, há muito adormecidas na lembrança. Até a tarde em que, depois do almoço de costume no Hotel Novo Mundo, o porteiro lhe entrega o pacote trazido por um hóspede. O narrador não esconde a emoção: a letra do sobrescrito, a fórmula do endereço, a espécie de laçada no barbante são do pai, só ele os faria com aquela minúcia. E recentemente, vê-se pelo frescor da tinta e pelo brilho do papel. Mas como, se Ernesto Cony Filho morrera há dez anos?! O mistério desafiará o romancista e prenderá os leitores até o último instante  ‒ quando o filho abre o pacote e desvenda o segredo... ou deixa-o fechado para sempre, guardando na escuridão da incerteza a presença viva do pai.

A passeio no Rio, quis dizer pessoalmente a Cony da emoção que me dera o Quase memória. Encontramo-nos no edifício da Manchete, onde ocupa o escritório que foi do ex-presidente Juscelino. A observação de que trouxera de volta não apenas o próprio pai, mas, de certa maneira, o de cada leitor é a da maioria dos que o procuram:

— Quando pensei em escrever o livro, não pretendia fazer memória nem ficção. Daí a maneira vaga como o defini: quase-memória, quase-romance... O que eu queria, na verdade, era apenas falar sobre o meu pai, dizer o que sinto sobre ele, o que me ficou dele ‒ fazer-lhe justiça, enfim. Parece que, com essa confissão extremamente pessoal, acabei traduzindo o sentimento de muitas pessoas. Quase todas declaram exatamente o que você acaba de dizer: que, ao lembrar a figura do meu pai, acabei resgatando, de alguma forma, a lembrança de todos os pais. Curioso é que, antigamente, o meu público leitor era formado preferencialmente por mulheres: acho que os meus romances interessavam mais a elas... Com o Quase memória, está acontecendo exatamente o contrário: são os homens que se dizem emocionados com o que escrevi.

Comento-lhe que o melhor de Um brasileiro em Berlim é a tocante homenagem que João Ubaldo Ribeiro presta ao pai, como se houvesse hoje, entre os nossos romancistas, um "movimento pela reabilitação paterna", que teria certamente o apoio de Cony:

 — Acho isso interessante, porque o pai sempre levou uma grande desvantagem com relação à mãe, no conceito dos filhos e da própria sociedade. Se alguém ofender moralmente a sua mãe, você pode até matá-lo e arguir o fato para se defender perante a justiça; se a agressão for contra o pai, não. Fico satisfeito por contribuir, com o sucesso do meu livro, para a reabilitação dos nossos pais...

 Disputando com O xangô de Baker Street, de Jô Soares, e Benjamim, de Chico Buarque, Quase memória foi um dos lançamentos que mais venderam em 1995, provocando gestos que surpreenderam o autor:

— Todo mundo sabe que não gosto do Antônio Carlos Magalhães, por tudo que representa de ruim na política brasileira. Pois bem: um dia desses, critiquei-o numa crônica e ele me passou um fax espinafrando de alto a baixo. No finalzinho, porém, disse que leu o livro e adorou, fez altos elogios à minha obra. Dias depois, encontramo-nos em uma solenidade na Bahia: ele veio me cumprimentar e pediu que lhe autografasse um exemplar para o filho, deputado Luís Eduardo Magalhães. Eu fiquei pensando: "O Luís Eduardo deve tudo ao pai, a sua carreira política nem teria começado sem a bênção paterna. Ora, o senador quer que ele leia o livro talvez porque seja aquela a maneira como gostaria de ser lembrado no futuro. Se quem merece toda a gratidão do filho pode não estar satisfeito com a imagem que tem, imagine como não devem sentir-se os outros, que fizeram muito menos..."

Despeço-me de Carlos Heitor Cony elogiando-lhe a boa forma com que chega aos setenta anos:

— Você me acha bem fisicamente, mas isso é só aparência. Estou com um problema de saúde, tanto que, depois do Natal, irei aos Estados Unidos fazer uns exames. Ficarei no Mount Sinai Medical Center, o mesmo onde morreram Tom Jobim, Pedro Collor e Jacqueline Onassis. Espero que eu não seja o próximo... Mas a ideia da morte, na verdade, não me angustia: se todos nós vamos morrer, eu, pelo menos, já tenho uma causa...

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